Gabriela Brasil – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Cerca de 56,4% dos alunos do 2º ano do ensino fundamental no Brasil não estavam alfabetizados em 2021. O estudo inédito sobre o cenário preocupante da educação básica brasileira é do Ministério da Educação (MEC), que aponta um grande número de crianças brasileiras sem habilidades básicas de leitura e escrita.
Ao portal RIOS DE NOTÍCIAS, a professora Eliane Pinheiro, de 57 anos, relatou os desafios sobre o processo de alfabetização na capital amazonense. Educadora há 40 anos, com 22 anos de atuação no ensino privado e 18 anos no ensino público, atualmente ela trabalha como professora do 1º ano do fundamental em uma escola municipal da capital amazonense.
Para ela, a alfabetização é a “mola” para que a criança se desenvolva gradativamente em todas as séries. “Uma boa alfabetização faz com que a criança tenha uma base bem firme”, afirma. Por outro lado, caso o processo de alfabetização não seja efetivo, o estudante vai para os outros anos com grande dificuldade de aprendizado.
Ao longo do ano letivo, ela destacou que busca trabalhar com intervenções e atividades que chamem atenção da criança para além da memorização de letras por meio de brincadeiras. Desta forma, todos os seus alunos passam para o 2º ano alfabetizados, com graus variados de leitura. “Há aquelas crianças que têm uma fluidez na leitura, e outras crianças com uma leitura mais devagar, mais silabada. Mas, todos vão lendo”, orgulha-se a educadora.
O processo de alfabetização se inicia ainda na pré-escola e é concluído no 3º ano do fundamental. “Mas, eu não vou descansar mandando o meu aluno para o 2º ano aluno lendo apenas silabas. Ele tem que conseguir [ler e escrever] no 1º ano, quando a janela do conhecimento está escancarada para o aprendizado. O 2º ano vai dar continuidade e no 3º fecha o ciclo”, explica a professora Eliane Pinheiro.
A professora ressalta também que o aluno do 2º ano do fundamental precisa saber ler e interpretar textos e problemas em todas as disciplinas. “Se ele sabe ler bem, ele sabe ler um problema. Ele entende nas entrelinhas a operação que ele vai realizar, porque ele entendeu o material”.
Alfabetiza Brasil

A pesquisa ‘Alfabetiza Brasil‘ indicou que apenas 43,6% das crianças brasileiras do 2º ano do fundamental sabiam ler e escrever, em 2021. Em comparação com o último estudo realizado em 2019, houve uma piora na educação brasileira.
Isso porque, o número de alfabetizados no 2º ano do ensino fundamental, em 2019, um ano antes da pandemia da Covid-19, era de 60,3%, uma queda de 16,7 pontos percentuais.
Já pesquisa do Sistema de Avaliação da Educação Brasileira (Seab), de 2021, também reforça os efeitos da pandemia no processo de aprendizado.
O relatório do Seab 2021 mostrou uma redução na escala de proficiência de aprendizado em língua portuguesa por estudantes do 2º ano do fundamental, que passou de 750 pontos, em 2019, para 725 pontos, em 2021.
Neste sentido, as pesquisas revelam que os estudantes em processo de alfabetização foram fortemente prejudicados pela paralisação das aulas durante o período pandêmico.
Desafios na alfabetização

Segundo a professora Eliane Pinheiro, há situações em que observa defasagem na leitura e escrita em alunos de outras instituições de ensino, inclusive casos de estudantes do 2º ano oriundos de outras escolas sem alfabetização. “A gente recebe crianças sem base nenhuma, até mesmo no pegar o lápis. Parece que não teve educação infantil”, lamenta.
Nesses casos, a alfabetização é ainda mais desafiadora, pois é preciso suprir lacunas deixadas em anos anteriores.
“A lacuna que fica na alfabetização, que é o 1º ano, é bem difícil de preencher nos outros anos do ensino fundamental. Nós tentamos de várias outras formas, com lúdico, vídeos e construção de material para que a criança possa se apropriar”
Eliane Pinheiro, professora alfabetizadora
Em sua avaliação, um dos principais desafios da alfabetização em Manaus surge ainda na educação infantil. Para ela, há uma preocupação exagerada com as brincadeiras, as quais são importantes para o aprendizado da criança, mas acabam se sobressaindo nas aulas em detrimento de outras atividades importantes. “Eu vejo como um grande empecilho em muitas escolas na rede municipal. Nesse preparo para o primeiro ano a educação infantil ainda é muito solta”, alerta a educadora.
“Está faltando a visão que eu posso trabalhar com a criança vários pontos importantes para a alfabetização, como conhecer o som das letras, fazer relação entre sons e letras. Saber habilidades necessárias como recortar, saber o que está na sua frente, atrás, ou ao seu lado”, explicou Eliane.
Outro fator importante para uma boa alfabetização, de acordo com a professora, passa também pelo acompanhamento da família.
“A família não abraça esse processo com a gente. São poucas as famílias que realmente se preocupam no dia a dia, que senta com o seu filho, lê uma historinha. Isso melhora a leitura dele ou dela”
Eliane Pinheiro, professora alfabetizadora






