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Home Cidades

‘Poderia ter sido pior’, diz sobrevivente da tragédia da Djalma Batista

A sobrevivente Gisele Costa revelou ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS os momentos do acidente que marcou o Estado e foi noticiado em todo o país

28 de março de 2024
em Cidades
Tempo de leitura: 13 min
acidente-gisele

Gisele Costa era cobradora do micro-ônibus envolvido no acidente com o caminhão (Divulgação/Hudson Neris)

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Vitória Freire – Rios de Notícias

MANAUS (AM) – Há 10 anos, a cobradora de ônibus, Gisele Costa, acordava para mais um dia “normal”. Chovia em Manaus, em meio ao inverno amazônico. Enérgica por ser sexta-feira, Gisele amamentou o filho de um ano e se vestiu rapidamente para trabalhar. O que ela não esperava é que sua história, bem como a de outras pessoas, estava prestes a sofrer uma reviravolta.

Na noite de 28 de março de 2014, por volta das 19 horas e 40 minutos, um caminhão que trafegava o sentido bairro-centro, na avenida Djalma Batista, zona Centro-Sul, perdeu o controle, atravessou o meio-fio e invadiu a contramão, colidindo diretamente com um micro-ônibus que fazia a linha 825 Redenção-Bairro da Paz. O acidente ocasionou a morte de 16 pessoas – incluindo uma grávida, uma criança e os dois motoristas.

Vítimas ficaram presas nas feragens após o acidente (Divulgação)

A sobrevivente Gisele Costa revelou ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS os momentos do acidente que marcou o estado e foi noticiado em todo o país.

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Com 19 anos na época, Gisele se encontrava na parte frontal do coletivo, ao lado de Robert da Cunha Moraes, motorista do micro-ônibus, e narra que se Robert não tivesse conduzido o veículo para a esquerda, os 17 sobreviventes poderiam não ter resistido.

“O fluxo da área e no horário [do acidente] é bem agitado. Mas, no momento do acidente, não víamos carros. Só estávamos nós na via. O motorista percorria o trajeto em 60 km/h, até porque o micro-ônibus estava cheio. Quatro pessoas estavam em pé. Quando o motorista da caçamba veio, em alta velocidade, eu lembro que o Robert jogou o ônibus para a esquerda. Se [o caminhão] tivesse batido de frente, todo mundo teria falecido. Eu lembro da luz alta do caminhão, de bater a cabeça, e de o vidro do para-choque do micro-ônibus cair em cima de mim. Desde aí, eu apaguei”

Gisele Costa, sobrevivente
Gisele Costa em entrevista ao Portal Rios de Notícias (Hudson Neris/Rios de Notícias)

Resgate

Espremendo os olhos para reviver memórias de uma noite que provocou cicatrizes físicas e psicológicas, Gisele, a primeira a ser evacuada do micro-ônibus, relata detalhes acerca do resgate.

“Demoraram duas horas para me tirarem do veículo. Não podiam me mexer devido à contusão que tive. Eu fraturei a perna e ela estava solta. Eu poderia perder a minha perna. Precisamos da ajuda do Corpo de Bombeiros para retirar todas as ferragens de cima de mim. O motor do micro-ônibus encolheu e me amassou. Nesse primeiro momento [do resgate], eu lembro que o meu pai estava lá comigo. Enquanto aguardávamos o Samu, ele conversava comigo e pedia para eu não dormir, para eu não ficar desacordada, porque eu podia vir a óbito”, contou Gisele.

15 dias em coma

Gisele sofre com sequelas do acidente até os dias atuais (Hudson Neris/Rios de Notícias)

A cobradora sofreu uma contusão pulmonar e um traumatismo craniano, que resultaram em hemorragias internas. Além disso, ela também fraturou o colo do fêmur, o fêmur e a patela do joelho.

Após 15 dias em coma e sete cirurgias, ela acordou sem saber o porquê de estar no hospital.

“Quando acordei, eu não entendia o porquê de eu estar no hospital. Eu tive uma perda de memória. Eu só via minhas pernas com os ferros e a mim mesma, entubada, repleta de aparelhos. Perguntei, então, o que havia acontecido. Assistentes sociais, enfermeiros e psicólogos que tiveram que me explicar, porque meus pais estavam tão chocados que eles não conseguiam detalhar. Eles pediram ajuda à equipe médica para eu entender que minha vida havia sofrido uma reviravolta e que eu não ia mais conseguir andar ou fazer tudo que eu fazia antes do acidente”, explicou.

‘Meses eternos’

Cicatriz na perna de Gisele devido ao acidente (Hudson Neris/Rios de Notícias)

A jovem permaneceu com uma sequela na perna esquerda, com uma diferença mínima de 6 milímetros em comparação à perna da direita, deixando-a sem movimentos. O que parece milimétrico, na verdade, mostra-se gigantesco no que diz respeito à qualidade de vida de Gisele e aos momentos que ela observava o filho dar os primeiros passos sem poder caminhar ao lado.

“Ao longo desses 10 anos, já tive inúmeros problemas com a minha perna. Sinto muitas dores, diariamente, o tempo todo. A minha família toda parou em prol da minha saúde. Eles ajudavam tanto a mim, quanto o meu filho. Eu não conseguia levá-lo ao médico, eu não podia cuidar do meu filho”, afirmou Gisele.

Atualmente, mesmo em um novo emprego, atuando em uma empresa de Recursos Humanos, Gisele se observa, vez ou outra, naquele micro-ônibus que modificou profundamente suas perspectivas. Em meio às consequências da tragédia, ela relembra que está viva.

“É como se esse dia tivesse sido ontem para mim. Quando eu conto essa história, é forte. Ninguém sabe, ninguém entende tudo o que passei nesses 10 anos. São 10 anos de angústia, luta e superação. Hoje, eu vejo que graças à medicina, eu consigo ser uma pessoa normal, entre aspas [sic], pelas sequelas com as quais fiquei (…) Antigamente, dois, cinco anos atrás, eu lembrava dessa época e chorava muito. Ficava em um momento depressivo, [questionando] o porquê de isso ter acontecido comigo. Hoje, eu vejo que [esse sentimento] não vale a pena, porque 16 pessoas morreram e eu estou viva, estou entre os 17 sobreviventes”, destacou Gisele.

Irresponsabilidade

O caminhão chocou de frente com o micro-ônibus (Edmar Barros/Futura Press)

Um laudo emitido pelo Instituto Médico Legal (IML), um mês após o acidente, apontou que o motorista do caminhão, Ozaías Costa de Almeida consumiu bebida alcoólica e cocaína antes do acidente.

Para Gisele, a irresponsabilidade do motorista que provocou a colisão persiste na atualidade.

“O 28 de março de 2014 mudou completamente a minha vida. As memórias daquela noite, as lágrimas, a tristeza de tantas pessoas que perderam seus familiares… Eu sobrevivi, graças a Deus, mas sinto muito pelas pessoas que partiram, infelizmente, de uma forma tão trágica e [em razão] de uma irresponsabilidade que a gente segue observando até hoje”, destacou a sobrevivente.

Em fevereiro deste ano, uma pesquisa divulgada por uma empresa de Marketing Digital expôs que Manaus é a segunda cidade do país com os piores condutores. O desrespeito às leis de trânsito é um dos aspectos que contribuem para a capital amazonense ocupar a vice-liderança no ranking.

Homenagem e Sensibilização

Em 2018, um memorial em homenagem às vítimas do acidente foi inaugurado pela Prefeitura de Manaus, embaixo do viaduto Ayrton Senna, na Djalma Batista.

Memorial criado para homenagear as vítimas do acidente de 28 de Março (Roberta Bindá/Rede Amazônica)

O acidente serviu como nome para o Complexo Viário construído na entrada do aeroporto, inaugurado em 2014. Segundo a gestão da época, a iniciativa visava sensibilizar os motoristas os cuidados no trânsito.

Complexo Viário 28 de Março, na entrada do aeroporto (Alexandre Fonseca/Semcom)

Veja o vídeo da reportagem completa:

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Tags: 10 anosAcidenteDjalma BatistaManausSobreviventetragédia

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