Vívian Oliveira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Uma série de denúncias enviadas ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS revela a crítica situação enfrentada pela Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), o Hospital Tropical, localizado na zona Centro-Oeste de Manaus. As informações recebidas evidenciam diversas irregularidades que têm impedido o pleno e eficiente funcionamento da instituição.
Segundo uma pessoa denunciante, que pediu para não ter o nome divulgado, desde outubro do ano passado, o Hospital Tropical enfrenta um cenário caótico, impactando até mesmo no fornecimento básico de insumos como papel higiênico. “Os funcionários estão levando desde papel higiênico de casa e material de uso pessoal”.
Profissionais de saúde e pacientes enfrentam condições precárias, como o calor devido à falta de manutenção nos condicionadores de ar. Prestadores de serviço de limpeza, sem receber salários há vários meses, optaram pela paralisação das atividades, resultando na falta de higiene nos ambientes e na inutilização dos banheiros.
“Equipes de limpeza não recebem há meses, e já não estão mais indo trabalhar. Os banheiros estão basicamente inutilizados porque não há quem limpe”, denuncia a pessoa.
E o mais grave, considerando a promessa básica de qualquer unidade de saúde que é prezar pela vida dos pacientes, a falta de medicamentos para sedação e reagentes para exames, como os de função renal, comprometem a qualidade dos serviços prestados à população.
Falta de gestão dos recursos públicos
As denúncias apontam para a falta de gerenciamento financeiro como um dos principais fatores pela crise. Apesar de receber recursos, o mecanismo não realiza repasses adequados para as instituições prestadoras de serviço, prejudicando diretamente a operacionalização da unidade.
Uma servidora, que também não quis ter o nome revelado, expôs a atual realidade e descreveu a instituição como uma “grande máfia“.
Ela explanou o ciclo vicioso de terceirizações que prejudica os trabalhadores, confirmou a falta de insumos essenciais para atender a população, que tem resultado em um “sofrimento silencioso e mortes inevitáveis”, descreveu.
“Não acredito que seja apenas um problema com o governador, mas também com os diretores da Fundação. E a Justiça já afirmou que não liberará o dinheiro para o Hospital Tropical por causa da má gestão dos recursos recebidos”, disse.
A servidora alertou para a falta de insumos, levando à paralisação das atividades no Hospital Tropical.
“Estamos clamando, protestando, porque as vidas estão se perdendo. Eu quero saber sobre os insumos. Sei que todos nós queremos salários, mas pela primeira vez vejo as pessoas paradas por falta de insumos […] Estamos de mãos atadas. Vemos as pessoas morrerem e permanecemos em silêncio”, lamentou.
Um terceiro relato apontou a perda de dois pacientes devido à falta de material para intubação, evidenciando uma calamidade nas enfermarias.
“Perdi dois pacientes na clínica masculina por falta de material para intubação orotraqueal. Dois pacientes em um plantão de 12 horas. Isso é um absurdo! E o mais triste é testemunhar profissionais indiferentes à vida, fazendo piadas dizendo que o paciente teve ‘alta celestial’ enquanto terceirizam a culpa e a dor do outro […] Algumas pessoas estão lá apenas para cumprir a carga horária e passar o dia conversando até a hora de ir para casa”, disse a denunciante, ao pedir sigilo da fonte.
Intervenção da Defensoria Pública
Em 14 de dezembro do ano passado, a Defensoria Pública do Amazonas (DPE/AM) ingressou com uma ação judicial exigindo que o governo estadual repassasse R$ 9,4 milhões à Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, que atua no tratamento de doenças infecciosas e parasitárias, incluindo HIV/AIDS e Hepatites Virais.
O montante é referente a repasses orçamentários não efetuados pelo governo entre setembro e dezembro. A ação destaca que a falta de recursos levou o hospital a uma crise operacional grave, que resultou em desabastecimento de medicamentos e redução nos atendimentos.
Na época, o defensor público Arlindo dos Santos alegou que a Secretaria de Saúde do Amazonas não apresentou prazo para realizar os pagamentos e pediu que a Justiça obrigue o governo a realizar os repasses necessários.
AÇÃO TROPICAL
Ainda segundo a Defensoria, os atrasos impactaram diretamente no estoque de medicamentos, pagamento de fornecedores e prestadores de serviços, que comunicaram a impossibilidade de continuar fornecendo à unidade.
Contratos essenciais para o funcionamento da Fundação, como cooperativas, serviços de imagem, kits de laboratório, conservação e limpeza, além de alimentação para pacientes, não são honrados desde agosto de 2023.
A situação já comprometia diversos serviços e gera risco iminente de suspensão, incluindo Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e outros atendimentos.
Silêncio
A REPORTAGEM DA RIOS buscou contato com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) desde 25 de janeiro. No e-mail enviado, a SES-AM foi questionada sobre denúncias no Hospital Tropical, repetindo o pedido em 26 de janeiro, 29 e 31 de janeiro.
Não houve esclarecimentos sobre a situação denunciada descrita nesta matéria. Porém, a assessoria respondeu nesta quarta-feira, 31/1, que aguarda o retorno dos setores responsáveis para uma posterior resposta.
Sobre a Fundação Tropical
A Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) é uma instituição de administração indireta, gozando de autonomia financeira. Embora vinculada à Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), assim como outras entidades como a Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecom) e a Fundação Hospitalar e Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (FHemoam), a FMT-HVD opera de forma independente.
Esse status de administração indireta confere às fundações uma certa autonomia em suas atividades e decisões, permitindo que desempenhem suas funções de maneira mais flexível e eficiente dentro do contexto da saúde pública.






