Vívian Oliveira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Uma pesquisa recente revelou que a maioria dos brasileiros não se recorda em quem votou para deputado estadual, deputado federal e senador nas eleições de 2022. O levantamento, realizado pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), aponta que 7 em cada 10 eleitores do país não conseguem lembrar em quem depositaram seus votos menos de um ano após as eleições.
O estudo, que entrevistou dois mil eleitores com 16 anos ou mais em 127 municípios de diferentes regiões do Brasil, revela uma variação significativa nos índices de lembrança de voto com base na renda e escolaridade. Apenas 44% dos entrevistados com renda superior a cinco salários mínimos e 42% dos que possuem ensino superior conseguem recordar em quem votaram para deputado federal. Em contrapartida, somente 21% dos que recebem até um salário mínimo e 23% dos que têm apenas o ensino fundamental lembram qual candidato recebeu seu voto.
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Democracia recente
Segundo Breno Rodrigo de Messias Leite, bacharel e licenciado em Ciências Sociais e mestre em Ciência Política, o desinteresse político no Brasil é uma realidade comum, enraizada na falta de tradição democrática do país.
“E eu não me refiro apenas à questão da participação do ponto de vista da filiação partidária, ou mesmo de se lançar candidato, porque aí já envolveria um nível de engajamento muito maior. Mas, em relação à participação eleitoral, as pessoas são muito reticentes em relações. Algumas pessoas acreditam que a participação não compensaria, não valeria a pena, não seria algo importante, o que é, na verdade, um problema de consciência política do brasileiro”, avaliou.
“O Brasil é um país com a democracia ainda muito recente. Agora que a Constituição Federal completou 35 anos. Ou seja, uma democracia muito recente e de baixa institucionalização traduz-se no baixo grau de participação dos cidadãos. E por que a democracia é o principal fator disso tudo? Porque é a partir do jogo democrático que entendemos participação, por meio do sindicalismo, dos movimentos sociais, da luta partidária, da participação dos partidos. Talvez esteja aí a questão do desinteresse”, complementou.

Revolução tecnológica
Além disso, Leite complementa que a vida moderna e suas demandas, como família e trabalho, afastam muitas pessoas da política formal, levando a um engajamento virtual crescente. Para ele, o desinteresse da população pela política também precisa ser mitigado e ser analisado à luz de certas transformações, como a tecnológica.
“Muitas vezes o interesse desse indivíduo não está na política formal, mas em algum tipo de engajamento. Não é à toa que cresceu, exponencialmente, o nível de engajamento virtual, a participação das pessoas na vida política pelas de redes sociais, principalmente. Daí o fenômeno, por exemplo, o Barack Obama, que iniciou um fenômeno pelo MySpace, de participação política. Também tem Donald Trump que revoluciona a política americana com o seu ativismo no Twitter. Então, essas questões são, de certa maneira, ressignificadas à luz do que temos hoje, que é uma revolução tecnológica”, revelou.
Prioridades políticas
A pesquisa mostrou que a melhoria na qualidade da saúde é uma prioridade para 57% dos entrevistados, independentemente da região do país. No entanto, a região Norte e Centro-Oeste se destacou com 59% de preferência para essa questão. A mesma região também apresentou maior preocupação com a geração de empregos devido ao desemprego. A região Nordeste, por sua vez, liderou em relação à preocupação com a redução da violência, com 40% das pessoas citando essa questão, enquanto a região Norte e Centro-Oeste demonstrou menos preocupação, com 32%.
Para o cientista, quando se trata da prioridade dada pelos políticos, pautas como saúde, educação e geração de empregos é importante considerar a complexidade do processo decisório na democracia.
Ele explica que, embora os políticos sejam eleitos para resolver problemas, suas ações estão sujeitas a várias etapas de negociação e aprovação. As decisões políticas não dependem apenas da vontade de um único indivíduo, mas de uma rede de tomadores de decisão, desde legisladores locais até do mais alto escalão do governo.
“A percepção de que políticos não estão agindo rapidamente para solucionar questões prioritárias pode criar um descompasso entre as expectativas dos eleitores e as realidades do sistema político. Apesar de muitos políticos apresentarem projetos e propostas em áreas críticas a tradução desses projetos em escolhas eleitorais é complexa”, afirmou.
Muitas vezes, a escolha do eleitor é influenciada por outros fatores, como identificação ideológica, valores pessoais e a mensagem do candidato, como aponta Breno.
“José Serra, por exemplo, do ponto de vista da sua projeção política eleitoral, ele se colocou como um candidato defensor dos remédios genéricos. Então, ele tenta capturar o eleitorado a partir dessa percepção de que ele é um político muito preocupado com saúde pública. Outro exemplo, é o Cristóvão Buarque que fez uma campanha presidencial inteira pautada na ideia de que ele é o político que vai representar a educação”.
Breno Rodrigo de Messias Leite, mestre em Ciência Política
O cientista político também sugere algumas estratégias para engajar efetivamente os cidadãos na vida política e melhorar a representatividade democrática. Para isso, os políticos e as instituições políticas podem considerar várias medidas:
- Comunicação Transparente: Políticos e instituições políticas devem se comunicar de maneira transparente, informando os eleitores sobre suas ações, decisões e projetos. A transparência promove a confiança dos cidadãos no processo político;
- Participação Cidadã: Promover a participação ativa dos cidadãos em debates públicos, consultas populares e audiências públicas. Isso permite que as vozes dos eleitores sejam ouvidas nas decisões políticas;
- Educação Cívica: Investir em programas de educação cívica nas escolas para aumentar o entendimento dos cidadãos sobre o sistema político e seus direitos e deveres;
- Aproximação com a Base: Os políticos podem se aproximar de suas bases eleitorais, participando ativamente de eventos comunitários, ouvindo as preocupações dos eleitores e explicando como estão trabalhando para atender às necessidades locais;
- Promoção da Diversidade: As instituições políticas devem garantir que haja representação de grupos diversos na política, refletindo a pluralidade da sociedade;
- Redução da Corrupção: Combater a corrupção e promover a ética na política para reconquistar a confiança dos eleitores;
- Acesso à Informação: Garantir que as informações sobre o governo e as políticas públicas estejam disponíveis e acessíveis ao público.
Voto Facultativo e Legitimidade
Breno lembra que o voto no Brasil não é obrigatório, mas sim o comparecimento às eleições. No entanto, a taxa de alienação eleitoral, que inclui não comparecimento, votos brancos e nulos é relativamente alta, chegando a 25% e 30%. A sanção pelo não comparecimento é uma multa de valor baixo, o que não representa um grande incentivo para o comparecimento.
A adoção do voto facultativo poderia reduzir ainda mais a taxa de comparecimento, diminuindo a legitimidade dos governantes eleitos. Em uma situação em que apenas uma parcela dos eleitores comparece, um governante eleito com uma porcentagem relativamente baixa de votos válidos poderia enfrentar desafios na governança e na representatividade.
“Eu sou favorável ao comparecimento. O modelo brasileiro é muito interessante. Inclusive vários países do mundo democrático copiam o modelo brasileiro porque funciona como uma espécie de ponto de referência no processo eleitoral. Então, eu sou um ardoroso defensor do modelo brasileiro nesse sentido. Eu acho que o comparecimento é importante. Além disso, funciona também como uma espécie de censo eleitoral, de participação política. É uma coisa importante para a vida democrática”, concluiu.
Confira o documento de pesquisa:






