Paulo Vitor Castro – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – À medida que as águas recuam, o lixo escondido sob as palafitas presentes às margens do igarapé do Educandos, na zona Sul de Manaus, fica ainda mais visível. Pneus, sacolas plásticas e entulhos revelam um problema que permanece mesmo com a mudança da paisagem. Para os moradores, a estiagem apenas torna visível o acúmulo de resíduos que há meses faz parte da rotina da comunidade.
Pouco mais de sete meses após a primeira reportagem sobre as condições do igarapé, o Portal RIOS DE NOTÍCIAS retornou ao local para acompanhar o que mudou desde o mês de março. Se antes parte do lixo permanecia encoberta pela água, agora os resíduos ocupam trechos expostos da margem. As reclamações, continuam as mesmas, a falta de limpeza e ausência de soluções para melhorar as condições ambientais da área.


Segundo os moradores, grande parte dos resíduos permanece sob as casas de palafita e presa à vegetação. A aposentada Ivone Lira afirma que a situação continua preocupante e que o volume de lixo chegou a aumentar desde a última reportagem.
“Não mudou nada. Está do mesmo jeito, na verdade, tá pior do que estava. Olha como está agora, de lixo. É muito lixo, mosquito, bicho, e isso faz até mal para a gente. Agora, para completar, tem a fumaça, que também prejudica a gente. Aqui não tem ajuda. A prefeitura não vem, ninguém ajuda ninguém e não fazem nem uma limpeza”, afirma.


Ivone também reclama da falta de assistência à comunidade e pede que o poder público envie equipes para limpar a área. Segundo ela, a situação afeta pessoas com diferentes necessidades, incluindo idosos, pessoas com deficiência e crianças.
“Eu queria que o prefeito olhasse por nós aqui, porque a gente está esquecido. Aqui tem gente doente, cadeirante, criança especial, criança autista, idoso. Eu queria que alguém olhasse por nós e mandasse uma equipe para vir limpar aqui embaixo. Se tirassem pelo menos a metade desses lixos, eu acho que a gente ficava mais feliz e respirava melhor“, desabafou.
Estiagem avança
Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o Rio Negro atingiu 17,54 metros em Manaus no dia 13 de outubro de 2026. Em 17 de março, o nível era de 24,82 metros, uma diferença de 7,28 metros entre as duas medições.
A redução do nível do rio acompanha o período de vazante, quando áreas antes cobertas pela água ficam expostas. Ainda segundo o SGB, os níveis registrados estão dentro do comportamento esperado para a época do ano.
Para o carpinteiro Raimundo Silva, que mora há quatro anos na região, a dificuldade está na retirada dos resíduos acumulados sob as palafitas. Ele afirma que as balsas utilizadas na coleta passam pela parte externa, mas não chegam aos outros trechos.
“As balsas só chegam aqui no tempo de cheia, pelo menos em parte. Principalmente nessa época, que é uma época boa de juntar o lixo por debaixo das casas, a balsa não entra para cá, não vem por aqui. Elas só vão ali por fora e juntam o lixo que está ali fora. Mas, debaixo das casas, como vocês estão vendo, o lixo aqui é muito”, relatou.


Apesar das críticas à falta de assistência, Raimundo reconhece que os moradores também precisam colaborar para reduzir o problema. De acordo com ele, algumas pessoas limpam o espaço sob as casas, mas outras deixam os resíduos acumulados ou não os levam até os pontos de descarte.
“Dia a dia, todos os anos, cada vez se acumula mais lixo. Tem muitas pessoas que limpam debaixo das suas casas, mas só limpam debaixo das suas casas, mas a outra metade das pessoas não limpa. E muitas delas também não jogam lá no lixeiro. Então, vai se acumulando muito lixo. A gente precisa se ajudar para limpar, para ficar melhor”, afirmou.
A aposentada Fátima Lira, que vive há mais de 30 anos na comunidade, também reclama da frequência da coleta. Segundo ela, a balsa passou apenas duas vezes durante o período de cheia deste ano, o que não foi suficiente para retirar os resíduos acumulados.
“Antigamente, a balsa vinha pegar o lixo aqui, pegava o entulho que tivesse, jogava em cima da balsa e levavam tudo. Mas agora, só vieram duas vezes durante essa cheia. Olha aí como tá essa lixarada aí. Amanhã minha minha neta vai pagar pro rapaz fazer essa limpeza aí. Porque eu tenho pena de jogar lixo assim dentro d’água, né? Isso é um crime”, contou.


Saneamento básico na capital
Além do acúmulo de resíduos, a região enfrenta desafios relacionados à cobertura de saneamento básico. Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), utilizados pelo Instituto Trata Brasil no Ranking do Saneamento 2026, apontam que Manaus tinha cobertura de coleta de esgoto de 32,35%.
O índice de tratamento do esgoto gerado era de 22,78%. No levantamento, que considera os 100 municípios mais populosos do país, a capital amazonense ficou na 82ª posição.
Procurada pela reportagem, a empresa de saneamento e abastecimento, Águas de Manaus, responsável pelo serviço, informou que realizou o mapeamento de diferentes áreas do bairro Educandos. Segundo o gerente de projetos da concessionária, Wendel Souza, o trabalho inclui regiões de palafitas, onde foram instaladas redes aéreas para levar água tratada às residências.
“Especificamente naquele bairro, nós fizemos um mapeamento de todas as áreas para identificar cada particularidade. Além das áreas movimentadas, também fizemos trabalhos específicos para as regiões onde ficam as palafitas, onde pudemos levar água tratada para todos. Até mesmo nas palafitas, passamos redes que agora são aéreas para que a água de qualidade chegue a todos que moram lá”, explicou.

Sobre o esgotamento sanitário, Wendel citou o programa Trata-Bem, voltado à ampliação dos serviços na capital. Ele também mencionou as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), instaladas na região.
“O caso das palafitas é específico. A gente estuda cada uma porque elas são diferentes. No Educandos, por exemplo, as palafitas estão em níveis mais altos, diferentes das do Beco do Nonato e do Beco São Vicente. Cada região de palafita precisa de um estudo detalhado, e é nisso que estamos trabalhando”, detalhou.

A reportagem procurou a Prefeitura de Manaus para esclarecer se há ações de limpeza previstas para o igarapé do Educandos, com que frequência a coleta de resíduos é realizada na área e quais medidas estão sendo adotadas para reduzir o acúmulo de lixo sob as palafitas. Até a publicação desta matéria, não houve retorno.






