Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A florada dos ipês tem mudado a paisagem de diferentes pontos de Manaus e chamado a atenção de quem passa pelas ruas da capital. Com flores brancas, rosas e amarelas, as árvores ganham destaque em meio ao período de calor e estiagem.
Além da beleza, a presença dos ipês também abre espaço para uma discussão ainda maior, como Manaus está sendo arborizada e quais espécies são mais adequadas para uma cidade localizada no bioma Amazônico?
A professora do Departamento de Biologia e líder do grupo de pesquisa Árvores do Asfalto, Yeda Maria Arruda, explicou ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS que os ipês pertencem à família Bignoniaceae e são árvores de crescimento rápido, conhecidas pela floração intensa.
Segundo a pesquisadora, as árvores passam naturalmente por um período de perda das folhas antes de apresentar a florada. Depois, novas folhas surgem.
“Eles são espécies de crescimento muito rápido, com uma floração muito intensa. São indivíduos que naturalmente perdem suas folhas numa dada época do ano, eles têm uma grande floração e depois dessa floração vão ter novas folhas”, explica.
Yeda Maria Arruda, professora de Biologia

Nem todo ipê é amazônico
Apesar de fazer parte da paisagem brasileira, o ipê não representa uma única espécie. Existem diferentes tipos encontrados no país e, em Manaus, algumas variedades foram introduzidas na arborização urbana em 2012.
É o caso do ipê-branco, identificado pela professora como Handroanthus alba, espécie natural da Mata Atlântica. Já o ipê-rosa, Handroanthus heptaphyllus, ocorre originalmente em áreas do Cerrado e também da Mata Atlântica.

As duas espécies, portanto, são brasileiras, mas não são nativas do bioma Amazônico.
Já o ipê-amarelo possui ocorrência natural na Amazônia e também foi utilizado na arborização de Manaus. De acordo com Yeda, a espécie costuma apresentar floração principalmente entre agosto e novembro.
A pesquisadora ressalta, porém, que árvores plantadas em ambiente urbano podem apresentar alterações no ciclo natural. “Como são espécies plantadas em ambiente urbano, pode ocorrer um retardamento ou, às vezes, eles não virem a florescer”.
Por isso, a intensidade da florada observada neste período não deve ser tratada como um fenômeno necessariamente igual todos os anos.
Segundo Yeda, fatores relacionados ao estresse sofrido pelas plantas podem interferir no padrão de floração. “Nós podemos ter uma oscilação no padrão fenológico dessas espécies”.
De beleza à sombra
A discussão sobre os ipês também leva a outro problema que afeta diretamente quem vive em Manaus: a arborização urbana. Um velho problema, sem solução encontrada nas últimas décadas pela adminstração municipal.
Para Yeda, a presença de árvores nas ruas não deve ser pensada somente pela beleza ou pela capacidade de produzir sombra. A arborização está relacionada ao conforto, à saúde, ao bem-estar e à qualidade de vida da população.
A professora afirma que Manaus ainda precisa avançar nesse aspecto e cita dados do último Censo do IBGE, segundo os quais a capital amazonense aparecia entre as últimas capitais brasileiras em proporção de vias públicas arborizadas.
“Nós precisamos melhorar. A arborização da cidade de Manaus está tendo uma plantação muito grande, houve um plantio muito grande até alguns meses atrás. Porém, essas mudas têm alguns problemas, porque elas não foram plantadas dentro de um padrão que é estabelecido por norma para a arborização urbana”, ressalta a especialista.
Espécies nativas
É nesse ponto que a florada dos ipês ganha outro significado. Para Yeda, a utilização de espécies nativas da Amazônia deve fazer parte da discussão sobre o futuro da arborização de Manaus.
Isso porque plantas originárias do próprio bioma tendem a apresentar maior adaptação às condições ambientais da região e ainda podem desempenhar funções ecológicas muito importantes.
“Elas são importantes para a conservação de espécies nativas do nosso bioma, a manutenção do patrimônio genético das espécies da nossa região, além da nossa identidade cultural pela valoração de espécies do nosso bioma”
Yeda Maria Arruda, professora do Departamento de Biologia
O colorido dos ipês continuará sendo um dos elementos que chamam atenção nas ruas de Manaus. Mas, para além da florada que rende fotos e muda temporariamente a paisagem, é necessário ampliar essa discussão.
A especialista defende o estudo de qual modelo de arborização a capital precisa para enfrentar o calor e melhorar a qualidade dos espaços urbanos.
“O grupo de pesquisa ‘Árvores do Asfalto’, que é o grupo de pesquisa que eu lidero, tem feito estudos sobre análise e crescimento das espécies que estão sendo plantadas na cidade de Manaus para podermos ajudar, inclusive, os órgãos públicos na orientação de que melhor espécie se adapta ao plantio em questão”, finaliza.






