Elen Viana e Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Depois do banho, da louça lavada ou de outras tarefas simples do dia a dia, a água segue um caminho que pouca gente vê. Antes de chegar aos sistemas de tratamento, porém, existe o trabalho de quem abre valas, instala tubulações, enfrenta sol, chuva e áreas de difícil acesso para ampliar a rede de esgoto de Manaus.
São operários, técnicos, motoristas, agentes de saneamento e engenheiros que atuam nos bastidores de uma infraestrutura que, na maioria das vezes, só é percebida quando não funciona.
Um desses trabalhadores é Manoel de Souza, que há mais de 17 anos atua no setor de saneamento. Funcionário da Águas de Manaus, ele já exerceu funções como motorista, agente de saneamento e líder de equipe. Nos últimos anos, participou de obras de implantação da rede de esgoto em áreas de Manaus onde esse serviço ainda não existia.

“Eu trabalho na companhia desde 2009. Vim de uma área totalmente diferente, então a adaptação não foi nada fácil. No primeiro dia, lembro de me perguntar se realmente aquele trabalho era para mim. Mas, com o tempo, você vai se adaptando, e o próprio serviço vai te moldando e preparando. Quando a gente faz o que gosta e entende que está levando saúde e qualidade de vida para a população, o trabalho ganha outro significado”
Manoel de Souza, operário
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Uma obra feita por muitas mãos
No Beco São Vicente, na comunidade da Redenção, Zona Centro-Oeste de Manaus, Manoel acompanhou de perto a implantação da rede coletora de esgoto. A área fica próxima ao igarapé do Gigante, um dos braços da Bacia do Tarumã.
Para ele, a transformação do local mostra como o trabalho dos operários pode mudar a rotina de uma comunidade.
“Isso aqui, há 10 anos, eu jamais poderia imaginar que estaria levando uma rede coletora para este lugar. E não é o trabalho de uma única pessoa, não é apenas o Manoel, tem todo um time por trás”, afirma.
Segundo a Águas de Manaus, o projeto implantou cerca de 1,2 quilômetro de rede e beneficia aproximadamente 600 moradores. A empresa afirma que os efluentes são encaminhados para tratamento na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Parque Mosaico.
Antes da execução, a equipe realizou estudos topográficos, mapeamento das residências e levantamento dos pontos de descarte. Cerca de 10 trabalhadores participaram diretamente da obra.
O coordenador de projetos Denilson Silva, que também tem 17 anos de atuação na empresa, acompanhou a execução.
“Às vezes, enfrentamos um tempo chuvoso ou muito sol, o que impacta na continuidade da nossa atividade, mas vamos entregar a obra no prazo estimado. São adversidades que acontecem, mas todas as minhas conquistas vieram deste trabalho, como casa, carro e os estudos das minhas filhas. Tudo isso, hoje, graças a Deus, veio deste trabalho”
Denilson Silva, coordenador de projetos

A Águas de Manaus afirma que o Beco São Vicente foi a primeira área de rip-rap da capital a receber uma rede de esgoto. O trabalho exigiu adaptações por causa das características do terreno e da proximidade com o igarapé.
“Desde o início das obras no beco, percebemos que os ratos foram nos acompanhando. Era uma situação precária, além de um forte odor. Hoje, não sentimos mais isso e já começou a melhorar a vida das pessoas daqui. Percebemos até mesmo o retorno de alguns peixes, como carás, e de garças, que acabam retornando para o igarapé”, afirma Denilson.
O desafio de trabalhar em áreas diferentes
Cada região de Manaus apresenta características próprias. Em áreas de palafitas, rip-raps ou terrenos com desníveis, os projetos precisam ser adaptados às condições encontradas pelas equipes.
O gerente de projetos Wendel Souza explica que o trabalho começa antes mesmo da instalação dos primeiros tubos.
“Podemos usar como exemplo o Beco do Nonato, uma área de palafitas, que tem uma obra parecida, mas apresenta características e especificações totalmente diferentes de uma área de rip-rap. Então, a gente passou pela região conhecendo cada casa, fazendo o levantamento dos níveis e identificando os pontos onde era realizado o descarte, para que pudéssemos dimensionar o projeto”
Wendel Souza, gerente de projetos da Águas de Manaus

Para os trabalhadores que executam a obra, além das dificuldades do terreno, existe a preocupação com a segurança.
“Quando a gente chega, já usamos jardineira, que vem até o umbigo, além de macacão, que protege todo o nosso corpo, luva de látex e também palmilhas, que colocamos dentro da bota. Como é uma área insalubre, caso a gente pise em cima de um prego, a palmilha evita a perfuração. Também usamos antibactericida e álcool em gel. Temos todos esses EPIs justamente para evitar acidentes”, explica Manoel.
Mudanças para quem vive no beco
Enquanto os trabalhadores acompanham a abertura das valas e a instalação das tubulações, os moradores observam a mudança na rotina.
Maria Cristina vive há 16 anos no Beco São Vicente. Ela lembra que, antes da implantação da rede, o esgoto das casas era lançado diretamente no igarapé.
“Antes era bem difícil, por causa do mau cheiro e do lixo que ficava acumulado aqui, principalmente na época de chuva. Às vezes, até o igarapé transbordava. Hoje, tudo mudou. Isso é uma maravilha para nós. A obra foi um presente para a comunidade”, afirma.
Segundo a moradora, a instalação da rede mudou a forma como o esgoto das residências é destinado.
“A água de todas as casas próximas caía e vinha direto para o igarapé, porque a gente não tinha onde jogar. Agora que passou a rede de esgoto, eles canalizaram, com um cano para cada casa e uma estrutura que funciona. Não está mais caindo na beira, agora tudo é canalizado”, destacou.
A moradora Daniela de Abreu, que vive na região há dez anos, também percebeu mudanças.
“Até os gabirus sumiram. Hoje aparece muito pouco por aqui. Antes, era uma quantidade muito grande, principalmente por causa do lixo que ficava acumulado”, declarou.

Um desafio que ainda está longe do fim
Apesar dos avanços em algumas áreas, Manaus ainda enfrenta um déficit histórico na cobertura de esgoto.
No Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil com base em dados de 2024 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Sinisa), Manaus aparece na 82ª posição entre as 100 maiores cidades brasileiras.
Os dados apontam que 97,13% da população tem acesso à água potável, enquanto a cobertura de coleta de esgoto chega a 32,35%. O índice de tratamento de esgoto é de 22,78%.

Para a pesquisadora e doutora em sustentabilidade Vanessa Meireles, a expansão da rede é necessária para reduzir os impactos ambientais provocados pelo lançamento irregular de efluentes.
“A coleta e o tratamento de esgoto foram historicamente negligenciados, tanto no Brasil quanto em Manaus. Na capital, durante muitos anos, efluentes sanitários foram despejados em rios e igarapés, causando impactos ao meio ambiente, que seguem até hoje. Cabe ao poder público estabelecer metas, fiscalizar e cobrar da concessionária a ampliação da rede de coleta e o tratamento adequado do esgoto”
Vanessa Meireles, especialista em Sustentabilidade

Dados da concessionária apontam que, em 2026, o investimento médio por morador em Manaus é de R$ 123,25. O valor, no entanto, fica abaixo do previsto pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB), que estabelece R$ 223,82 por habitante, a diferença é de 44%.

A especialista também destaca a necessidade de maior atenção a projetos de saneamento que considerem as características específicas da região amazônica, de forma a identificar as necessidades de infraestrutura e desenvolver soluções adequadas.
“A prefeitura deveria ter uma equipe qualificada e que conheça bem a cidade para avaliar o cenário da infraestrutura, além das potencialidades e fragilidades existentes. Trazer empresas de fora para elaborar projetos estruturais pode não contemplar as especificidades da região”, diz ela.
A reportagem procurou a Prefeitura de Manaus para solicitar um posicionamento sobre o acompanhamento e a fiscalização das ações de saneamento, além da expansão da rede de esgoto na capital, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.
O trabalho que continua depois da obra
Para os profissionais que atuam no saneamento, a instalação da rede representa apenas uma parte de um processo que precisa continuar com a ligação dos imóveis ao sistema e o tratamento adequado dos resíduos.
O coordenador de Relações Institucionais da Águas de Manaus, Leonardo Ferreira, afirma que a empresa já investiu quase R$ 3 bilhões em esgotamento sanitário desde o início da concessão, em 2018, e prevê novos investimentos.
“Já investimos quase R$ 3 bilhões em esgotamento sanitário no município. No último levantamento do Trata Brasil, Manaus foi o quarto município do país que mais investiu em saneamento básico. O investimento passou de R$ 28 para uma média de R$ 123 por habitante”
Leonardo Ferreira, coordenador de Relações Institucionais da Águas de Manaus

Leonardo também destaca que a expansão da rede depende da adesão dos moradores ao sistema de esgotamento, por meio da interligação dos imóveis à estrutura disponível.
“É importante ressaltar que a ampliação para todos os cantos da cidade também depende de a população se interligar ao sistema, para que o esgoto gerado nas residências possa ser tratado e devolvido aos igarapés. Para que consigamos tratar esse esgoto e retorná-lo aos corpos d’água, a população precisa participar dessa mudança”, afirma o coordenador.
O saneamento que ainda não chegou para todos
Enquanto novas obras avançam pela cidade, trabalhadores como Manoel, Denilson, Wendel e tantos outros seguem atuando longe dos holofotes.
Para alguns, o trabalho é uma profissão construída ao longo de décadas. Para outros, representa a expectativa de levar para casa uma estrutura que ainda não existe.
É o caso de Sérgio Ribeiro, que trabalha no setor de saneamento e mora no bairro Tancredo Neves, na zona Leste de Manaus. Ele conhece de perto a realidade de quem ainda espera pela chegada da rede.
“Onde eu moro ainda é um lugar bastante precário, e uma estrutura como essa faz muita falta. Mas acredito que, com o tempo, esse trabalho vai chegar lá e transformar também a vida dos moradores da minha região”
Sérgio Ribeiro, operário

Por trás dos canos, das máquinas e das valas abertas nas ruas, estão pessoas que passam horas sob o sol, enfrentam a chuva e trabalham em áreas de difícil acesso.
São os rostos de uma obra que, quando concluída, deixa de ser apenas uma tubulação enterrada no chão e passa a fazer parte da vida de quem espera por mais saúde, infraestrutura e qualidade de vida.



















