Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A fila do Sistema Nacional de Regulação (SISREG), que há anos desafia pacientes da rede pública de saúde no Amazonas, voltou ao centro do debate político com a aproximação das eleições de 2026. A promessa de eliminar a espera por consultas, exames e cirurgias passou a integrar o discurso de pré-candidatos ao Governo do Estado, enquanto especialistas alertam que a solução exige mudanças estruturais e investimentos permanentes.
O ex-prefeito David Almeida (Avante), o pré-candidato ao Governo Omar Aziz (PSD) e o pré-candidato ao Senado Eduardo Braga (MDB) afirmam que pretendem zerar a fila do sistema caso seus grupos políticos sejam eleitos. A candidata a vice-governadora na chapa de David Almeida, Shádia Fraxe, também defendeu recentemente medidas para reduzir a demanda acumulada no SISREG.
Em sentido contrário, o secretário de Estado de Saúde, Luís Alberto Saraiva, classificou a proposta como tecnicamente inviável, afirmando que a fila é dinâmica e recebe novos pacientes diariamente.
Com o tema ganhando espaço na disputa eleitoral, o Portal RIOS DE NOTÍCIAS ouviu especialistas da área da saúde para entender quais são os principais entraves do sistema e se a promessa de zerar a fila é, de fato, possível.
Problema vai além da fila
Para uma enfermeira ouvida pela reportagem, que preferiu não se identificar, o principal impacto da demora é sentido diretamente pelos pacientes, que podem ter o quadro de saúde agravado enquanto aguardam atendimento especializado.
“A demora pode fazer a doença piorar, aumentar o sofrimento do paciente e, em alguns casos, até reduzir as chances de tratamento.”
Segundo a profissional, o crescimento da fila não está relacionado apenas ao sistema de regulação, mas principalmente à capacidade da rede pública de ofertar consultas, exames e cirurgias.
“Tem a ver com a falta de médicos, poucos exames e cirurgias disponíveis, alta procura e dificuldade na organização da fila do sistema”, disse.
Zerar a fila é um desafio, dizem especialistas
Na avaliação da enfermeira, eliminar completamente a fila representa um desafio de grandes proporções.
“É muito difícil. Seria preciso aumentar bastante o número de atendimentos, contratar profissionais, ampliar horários e melhorar a gestão.”
Ela afirma que mutirões e ações emergenciais podem reduzir temporariamente a demanda reprimida, mas não resolvem o problema de forma definitiva.
“Eles ajudam a diminuir a fila, mas sozinhos não resolvem o problema. Se não houver mudanças permanentes, a fila volta a crescer.”
A especialista também defende investimentos contínuos na atenção básica para evitar que pacientes cheguem aos serviços especializados com doenças agravadas.
“O maior desafio é atender a grande demanda com os recursos disponíveis, além das dificuldades de acesso nos municípios do interior e do tempo de espera mesmo em situações que exigem urgência.”
“Mutirão resolve o hoje, não o amanhã”, diz presidente da ABEn-AM
Para o presidente da Associação Brasileira de Enfermagem – Seção Amazonas (ABEn-AM), Elton Aleme, os mutirões são importantes para atender pacientes que aguardam há meses ou anos, mas não representam uma solução definitiva.
“Os mutirões são importantes porque precisamos resolver o mais rápido possível principalmente os casos mais graves, mas eles também são uma prova da ineficiência de quem deixou essa fila se acumular. É como uma casa onde você deixa o lixo acumular durante semanas e depois tenta resolver tudo em um único dia.”

Segundo ele, o Amazonas precisa ampliar sua estrutura hospitalar e descentralizar os serviços de média e alta complexidade para reduzir a dependência de Manaus.
“Enquanto não houver coragem para resolver o gargalo dos polos de saúde, cada região precisa ter estrutura adequada, com laboratórios e profissionais especializados.”
Transparência também é apontada como desafio
Para Elton Aleme, além da ampliação da rede, o sistema de regulação precisa oferecer mais transparência para que a população saiba como funciona a fila de espera.
“O sistema de regulação é bom no papel. Ele precisa ser bom também na prática. Não queremos voltar ao passado, quando as pessoas madrugavam para conseguir uma ficha. Queremos uma regulação eficiente, transparente e que funcione para todos.”
Segundo ele, a demora para realização de exames e consultas pode agravar doenças e reduzir as chances de recuperação dos pacientes.
“Essa demora pode significar o agravamento de situações que poderiam ser resolvidas com um diagnóstico mais rápido.”
Para o presidente da ABEn-AM, a solução passa pela ampliação da rede hospitalar, contratação de profissionais por concurso público, fortalecimento da atenção básica e maior integração entre Estado e municípios.
“Sem ampliação da rede, contratação e planejamento, continuaremos enfrentando filas e sofrimento da população.”
Pacientes deixam de falar após orientação em hospitais
Na tentativa de mostrar como a fila do SISREG afeta a população, a equipe do Portal RIOS DE NOTÍCIAS esteve em frente aos hospitais e prontos-socorros 28 de Agosto e Platão Araújo.
Alguns pacientes aceitaram relatar as dificuldades enfrentadas para conseguir consultas, exames e cirurgias. No entanto, eles desistiram de conceder entrevista após receberem orientação das administrações das unidades.
Com isso, não foi possível registrar os depoimentos dos usuários do sistema.
Posicionamento
O Portal RIOS DENOTÍCIAS procurou a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) para comentar as declarações dos especialistas, a situação da fila do SISREG e os dados atuais da regulação no estado.
Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.






