Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Nesta sexta-feira, 13/3, completa um mês do naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, ocorrido por volta de 12h30 do dia 13 de fevereiro, no Encontro das Águas. A embarcação fazia o trajeto entre Manaus e o município de Nova Olinda do Norte quando afundou em meio ao banzeiro formado na confluência dos rios Negro e Solimões.
Assista ao documentário no final desta matéria.
Um mês após o naufrágio, cinco pessoas continuam desaparecidas. As buscas continuam e a investigação da polícia ainda tenta esclarecer o que provocou o acidente. O comandante da embarcação, Pedro José da Silva Gama, teve a prisão preventiva decretada pela Justiça do Amazonas e é considerado foragido.

Para entender como funciona a rotina das viagens fluviais e ouvir quem depende diariamente desse tipo de transporte, a equipe do Portal RIOS DE NOTÍCIAS foi até o Porto de Manaus, na área conhecida como Bolsa Amarela, de onde partem lanchas rápidas com destino a diversos municípios do interior do Amazonas.
Além de conversar com passageiros, comandantes e proprietários de embarcações, a reportagem também embarcou em uma lancha e seguiu até o Encontro das Águas, local onde ocorreu o naufrágio.
No trajeto, foi possível observar o intenso fluxo de embarcações que cruzam diariamente a região, considerada uma das mais movimentadas rotas fluviais do estado. No local do acidente, equipes de resgate continuam realizando buscas pelos desaparecidos.

Em nota enviada à reportagem, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas informou que as equipes já percorreram cerca de 238 quilômetros pelo Rio Amazonas desde o início da operação.
Segundo a corporação, cerca de 20 militares participam das buscas, entre eles mergulhadores especializados. A operação também conta com cinco embarcações, além do uso de drones, helicóptero e equipamentos de sonar para leitura do leito do rio.
Segurança nas viagens
Entre trabalhadores do transporte fluvial, o naufrágio trouxe de volta discussões sobre a segurança das navegações nos rios. Com mais de 40 anos de experiência na navegação, o proprietário de embarcação Vilson Bezerra Travessa afirma que diversos fatores podem influenciar em um acidente.

“Começou pelo comandante e terminou pelos passageiros. Eles levantaram e a lancha ficou para um lado. A onda pegou errado e ela embocou. Nesse dia estava banzeirando bastante”, afirmou.
Apesar disso, segundo ele, as viagens são seguras quando as regras são cumpridas. “A capitania fiscaliza direitinho. O problema é que a documentação das embarcações é cara e muitos proprietários enfrentam dificuldade para regularizar tudo”, disse.
Condições do rio exigem experiência
Para comandantes que atuam diariamente nas rotas fluviais, a atenção às condições do rio é essencial. O comandante fluvial Jonilson Becil explica que fatores como vento e banzeiro influenciam diretamente na navegação.

“A gente depende muito do tempo. Analisa o vento, vê se a água está banzeirando. Se estiver muito forte, tem que reduzir a velocidade ou encostar a lancha para garantir a segurança”, explicou. “A capitania está todo dia aqui. Eles verificam os coletes, extintores, documentação e equipamentos da lancha”, completou.
Precaução durante as viagens
Empresários que atuam no transporte fluvial afirmam que decisões da tripulação podem ser determinantes para evitar qualquer acidente. O empresário Fabrício Lira destaca que, em condições adversas, a prioridade é preservar vidas.

“O transporte fluvial é seguro, mas depende muito da tripulação e das precauções. Quando tem temporal ou banzeiro, a gente reduz a velocidade ou encosta na margem para proteger os passageiros, isso deve ser um procedimento de praxe”, disse.
Passageiros mais atentos
A tragédia também mudou a forma como muitos passageiros encaram as viagens. A passageira Alícia Geovana, de 27 anos, que costuma viajar entre Beruri e Manaus, afirma que passou a observar mais as condições de segurança antes de embarcar.

“Agora eu sempre olho se tem os coletes certinhos. Antes vinha mais gente do que o esperado, mas agora eles estão mais vigilantes em relação a isso”, relatou.
Ela também disse que presta atenção à velocidade da embarcação, principalmente em dias de chuva, quando a quantidade de banzeiros aumenta nos rios.
Famílias ainda esperam respostas
Entre os desaparecidos está Apoliana Oliveira, que completaria 36 anos no fim de fevereiro. A família ainda não conseguiu localizar o corpo da vítima.
O irmão dela, o empresário Renan da Silva Oliveira, lembrou a reportagem do momento em que recebeu a notícia do naufrágio.

“Foi um choque. Um amigo chegou dizendo que a lancha em que minha irmã estava tinha afundado. Quando chegamos perto do local já tinha muita gente procurando sobreviventes”, contou.
Segundo ele, testemunhas disseram que Apoliana tentou salvar o filho durante o acidente.
“Disseram que ela estava com colete, mas quando o filho disse que não conseguia mais, ela tirou o colete e entregou para ele, mesmo não sabendo nadar”, relatou.
Cobrança por justiça
Familiares afirmam que a ausência de respostas prolonga ainda mais o sofrimento. A empresária Nubia Lima da Silva, cunhada de Apoliana, diz que a família ainda não conseguiu lidar com a perda.

“A gente não sabe para onde ela foi. Nem um enterro digno a gente teve. Eu não consigo esquecer dela nenhum momento”, disse.
Ela também cobra responsabilização pelo acidente. “Ele [comandante da lancha] tirou vida de gente. A gente quer justiça”, afirmou.
Apelo para retirada da embarcação
Amiga da vítima, Francidalva Lima da Silva fez um apelo para que a embarcação seja retirada do fundo do rio.
“A gente pede que tirem essa lancha do fundo. Pode ter corpo lá dentro. As famílias precisam dessa resposta”, destacou.

Investigação da polícia
A investigação está sob responsabilidade da Polícia Civil do Amazonas, por meio da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros.
Em resposta ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, a corporação informou que o inquérito segue em andamento e que “novas informações serão divulgadas em momento oportuno.”

Arsepam não respondeu
A reportagem também procurou a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados e Contratados do Amazonas para comentar o caso e explicar como estão sendo realizadas as fiscalizações nas embarcações que operam no Porto de Manaus.
O riosdenoticias.com solicitou entrevista para abordar o andamento das inspeções e possíveis investigações administrativas após o naufrágio. Até a publicação desta reportagem, no entanto, o órgão não respondeu aos questionamentos nem concedeu entrevista.
A última manifestação pública da agência ocorreu no dia 17 de fevereiro, quatro dias após o acidente, quando informou que realiza fiscalizações nos principais pontos de saída de embarcações da capital, verificando quantidade de passageiros, horários das viagens e itens obrigatórios de segurança.

Um mês depois
Enquanto as embarcações continuam partindo diariamente do Porto de Manaus rumo ao interior do Amazonas, familiares das vítimas ainda convivem com a espera.
Para eles, um mês depois da tragédia, a pergunta permanece: o que realmente aconteceu naquela tarde no Encontro das Águas, e quem será responsabilizado por isso.
DocumentaRios
A Rede RIOS DE COMUNICAÇÃO produziu um documentário com toda a apuração feita durante este um mês do naufrágio. A produção, que integra o DocumentaRios, já está disponível no YouTube do portal.
O terceiro episódio da série revisita a tragédia registrada na tarde de 13 de fevereiro, quando a embarcação que fazia o trajeto entre Manaus e o município de Nova Olinda do Norte afundou na região onde os rios Negro e Solimões se encontram.






