Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Pessoas com deficiência (PCDs) continuam vulneráveis no trânsito de Manaus devido à falta de acessibilidade, infraestrutura adequada e fiscalização nas vias da cidade.
A situação voltou a ganhar destaque após o atropelamento da paratleta Marleide Sales da Silva, de 52 anos, ocorrido no último domingo, 8/3, durante uma corrida em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, na avenida João Valério, zona Centro-Sul da capital.
A paratleta participava da prova e seguia o percurso acompanhada por agentes do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), responsáveis pela sinalização do trânsito e pela segurança dos participantes.
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Imagens que circulam nas redes sociais mostram o momento em que um agente de trânsito, posicionado no cruzamento das avenidas João Valério e Maceió, sinaliza para que um carro vermelho pare. No entanto, o motorista desrespeita a ordem, avança o cruzamento e atinge a competidora.

Segundo o presidente da Associação dos Deficientes Físicos do Amazonas em Manaus (Adefa), Isaac Benayon, e o especialista em trânsito Manoel Paiva, o atual modelo de planejamento urbano ainda prioriza os automóveis, em vez das pessoas, especialmente quando se trata de cidadãos com deficiência.
Vulnerabilidade nas ruas
Para o ativista e cadeirante Isaac Benayon, cidades brasileiras como Manaus foram projetadas principalmente para os veículos, tornando-se ambientes hostis para pedestres.
“As cidades são planejadas e operadas para automóveis, mas acabam sendo excludentes para pessoas com deficiência, idosos, pessoas com baixa mobilidade, usuários de transporte coletivo, mulheres e crianças. As vias são inacessíveis para quem tenta caminhar ou pedalar”, afirma.
Benayon destaca que os pedestres, de forma geral, são os mais vulneráveis no sistema de mobilidade urbana. Para ele, é urgente melhorar as condições das vias e ampliar a acessibilidade com calçadas adequadas, passarelas acessíveis e faixas de pedestres devidamente sinalizadas.
Ele também defende campanhas educativas voltadas à segurança no trânsito.
“É importante promover campanhas educativas voltadas a pedestres cadeirantes, pessoas com baixa mobilidade, idosos, crianças e gestantes, com presença mais ativa de agentes orientando e protegendo essa população que diariamente precisa se deslocar pela cidade”, explica.
Falhas na proteção durante eventos
O ativista também aponta falhas no planejamento e na fiscalização de eventos realizados em vias públicas. Para ele, o caso da paratleta atropelada evidencia problemas na organização e na proteção dos participantes.
“Proteção e acessibilidade são pontos básicos para que atletas, sejam profissionais ou amadores, possam participar e competir com segurança, principalmente em eventos que ocupam o espaço viário”, afirma.
Mesmo com a interdição parcial da via durante a corrida, um motorista conseguiu invadir o percurso da atleta, o que, segundo Benayon, revela fragilidades na segurança e na acessibilidade no trânsito da capital.
“Precisamos ser tratados com mais cuidado e respeito. Todo evento público exige planejamento para reduzir riscos à segurança das pessoas”, disse.
Ele acrescenta que o episódio representa um desrespeito não apenas à atleta, mas também aos pedestres que enfrentam diariamente vias inseguras.
“Temos ruas sem calçadas adequadas, passarelas insuficientes, infraestrutura precária e falta de respeito de muitos condutores com as faixas de pedestres, especialmente nas áreas mais afastadas da cidade”, conclui.
Falta de investimentos em mobilidade
Para o especialista em trânsito Manoel Paiva, um dos principais desafios da mobilidade urbana no estado é a falta de investimentos estruturais, como a implantação de um Plano de Mobilidade Urbana Integrada, Acessível e Sustentável.

Segundo ele, fortalecer o transporte coletivo é essencial para reduzir acidentes e melhorar a circulação na cidade.
“O transporte coletivo é uma das principais alternativas para reduzir os elevados índices de acidentes, além de ajudar a diminuir congestionamentos, poluição e o estresse causado pelo trânsito”, destaca.
Paiva também ressalta que muitas áreas da cidade ainda apresentam condições precárias para deslocamento.
“Muitos espaços urbanos ainda são inacessíveis para quem precisa caminhar ou pedalar, seja nas vias principais, nos bairros ou em áreas públicas”, afirma.
Dados preocupantes
Dados do Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam o tamanho do desafio. Segundo o levantamento, 66% dos brasileiros vivem em ruas sem rampas de acessibilidade para cadeirantes.
Além disso, cerca de 40% das vias não possuem calçadas, enquanto apenas 12% dos trechos urbanos contam com rampas adequadas para pessoas com deficiência.
A situação é ainda mais crítica nas regiões Norte e Nordeste, onde o percentual de ruas com rampas acessíveis cai para menos de 8%. Nessas regiões, mais de 50% das vias também não possuem calçadas adequadas para pedestres.
Apesar de a legislação brasileira, como a Lei de Acessibilidade (Lei nº 10.098/2000), estabelecer a obrigatoriedade de adaptações urbanas, especialistas apontam que a implementação das medidas ainda avança de forma lenta em muitas cidades.






