Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O Amazonas deve registrar cerca de 5.580 casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, de acordo com dados da Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), divulgados em fevereiro deste ano. O levantamento também aponta uma tendência de aumento dos casos da doença em adultos mais jovens, especialmente na faixa etária entre 18 e 50 anos.
Ainda segundo o relatório, Manaus deve concentrar cerca de 3.950 casos da doença. A principal incidência reflete fatores como o envelhecimento da população, as desigualdades regionais e os desafios persistentes no acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno.
Entre os homens amazonenses, os tipos de câncer mais incidentes são os de próstata (28,9%), estômago (15,08%), cólon e reto (10,3%), pulmão (10,1%) e cavidade oral (4%).
Já entre as mulheres, em ordem de incidência, predominam os cânceres de mama (30,26%), colo do útero (28,57%), cólon e reto (9,08%), pulmão (7,05%) e glândula tireoide (5,92%).

O câncer de pele não melanoma permanece como o mais frequente em ambos os sexos, sendo apresentado separadamente pelo estudo em razão de sua alta incidência, mas, em contraponto, de sua baixa letalidade. As taxas são de 12,69% entre os homens e 13,68% entre as mulheres.
Diagnóstico tardio
Segundo a oncologista Poliana Signorini, do Centro Integrado de Pesquisa da Amazônia (Cinpam), embora exista uma tendência mundial de aumento no número de novos casos de câncer, cenário que também se repete no Amazonas, a falta de estrutura da rede básica de saúde tem impacto direto nesses diagnósticos, que muitas vezes ocorrem de forma tardia, devido ao longo período de espera.
“Existe uma tendência de crescimento no número de casos novos em todo o mundo. No Amazonas não é diferente. A estimativa serve de alerta para que políticas públicas de prevenção e diagnóstico precoce sejam reforçadas na região. Mas o diagnóstico depende de uma rede básica de saúde ágil e com boa interface com serviços de maior complexidade. Existe a lei dos 30 dias para diagnóstico e a lei dos 60 dias para início do primeiro tratamento, mas no Amazonas ainda não está sendo universalmente possível cumprir essas leis”, diz ela.

De acordo com a oncologista, um dado que merece atenção especial no estado é o fato de o câncer de colo do útero estar entre os três tipos de maior incidência no Amazonas, o que demonstra ineficiência na cobertura vacinal e a falta de políticas públicas voltadas para exames preventivos.
“O que realmente diferencia o Amazonas do resto do mundo é ter o câncer de colo de útero entre os três mais incidentes. A alta incidência do câncer de colo de útero na região está diretamente ligada à baixa cobertura vacinal do vírus HPV na população até 45 anos e ao rastreio ineficaz com os testes preventivos”, explica a especialista.
A especialista destaca ainda que o aumento dos casos entre os jovens está relacionado a hábitos sedentários, alimentação rica em ultraprocessados e ao abuso de bebidas alcoólicas.
“O aumento de câncer entre os jovens está diretamente ligado a hábitos sedentários, alimentação rica em ultraprocessados, elevado consumo de bebidas alcoólicas e baixa adesão a vacinas como a vacina do HPV e da hepatite B”, explica Poliana.

Leia mais: Jornal Rios de Notícias celebra 100ª edição e reforça compromisso com a informação de qualidade
Dados nacionais
Para todo o Brasil, são esperados 781 mil novos casos de câncer por ano no período de 2026 a 2028. O cenário indica que a doença se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de morte no país.
O relatório também aponta desigualdades regionais. O câncer do colo do útero figura entre os mais incidentes nas regiões Norte e Nordeste, enquanto o câncer de estômago apresenta maior incidência entre os homens nessas mesmas regiões.
Já os tumores associados ao tabagismo, como câncer de pulmão e de cavidade oral, são mais frequentes nas regiões Sul e Sudeste. As diferenças observadas refletem o acesso desigual à prevenção, ao rastreamento e ao tratamento, além de distintos padrões de comportamento da população.
A metodologia utilizada é análoga à empregada no cálculo das estimativas do Global Cancer Observatory (Globocan) e foi desenvolvida com base em modelos de predição de curto prazo, de até cinco anos. Embora não representem números absolutos, as estimativas são próximas da realidade e consideradas fundamentais para o planejamento de políticas públicas.
Sem posicionamento
Diante do aumento projetado de casos de câncer no Amazonas, o Portal Rios de Notícias solicitou informações à Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) e à Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa) sobre as medidas adotadas para enfrentar o crescimento da doença. No entanto, até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestações.






