Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Apesar da queda nos registros de feminicídio em 2025, o Amazonas ainda enfrenta um obstáculo silencioso no combate à violência contra a mulher: a subnotificação.
O medo, a dependência econômica e o silêncio das vítimas continuam impedindo denúncias e atrasando a responsabilização dos agressores, alertam especialistas.
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) indicam uma redução de 31% nos casos de feminicídio no estado em 2025.
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Ainda assim, profissionais que atuam na área destacam que a diminuição dos números oficiais não reflete, necessariamente, o fim da violência, já que muitas agressões não chegam ao conhecimento das autoridades.
Segundo especialistas ouvidos pelo Portal RIOS DE NOTÍCIAS, denunciar desde as primeiras agressões é essencial para interromper o ciclo de violência e evitar desfechos fatais.
Silêncio que mata
Para a delegada Débora Mafra, a subnotificação é um dos principais entraves no enfrentamento ao feminicídio. Ela explica que muitas tentativas de assassinato de mulheres sequer são registradas, o que mascara o contexto de violência de gênero e dificulta a atuação do Estado.
“O medo da vítima, aliado à dependência financeira do agressor, compromete o testemunho e atrasa as investigações. Sem denúncia, as autoridades não conseguem agir a tempo”, afirma.

A delegada reforça que qualquer tipo de violência – inclusive verbal – deve ser denunciada, assim como o descumprimento de medidas protetivas. “Essas informações permitem a prisão preventiva do agressor antes que o feminicídio aconteça”, alerta.
Atuação humanizada
Segundo Mafra, a segurança pública tem papel central na quebra do ciclo de violência, adotando uma abordagem mais humanizada e especializada.
“O enfrentamento ao machismo exige que as forças de segurança sejam acolhedoras, para que a vítima se sinta segura ao denunciar”, destaca.
“A denúncia deixa de ser apenas um ato de medo e se transforma em resistência e libertação”, completa.
Resultados e desafios
A delegada atribui a redução dos índices em 2025 ao fortalecimento das Delegacias Especializadas em Crimes Contra a Mulher e do Núcleo de Combate ao Feminicídio.
“Profissionais capacitados oferecem mais segurança às vítimas e intimidam a ação dos agressores”, explica. Ela também ressalta a importância da Ronda Maria da Penha, responsável por fiscalizar o cumprimento das medidas protetivas.
Rede de proteção ainda insuficiente
Para Vlais Monteiro, mestre em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos, a queda nos números não elimina a gravidade do problema.
“A violência doméstica e as tentativas de feminicídio seguem elevadas. Muitas mulheres ainda não conseguem acessar a rede de proteção”, observa.

Ela defende a ampliação de políticas públicas, com delegacias especializadas itinerantes, núcleos móveis de atendimento no interior e mais casas-abrigo regionais.
“Isso evita deslocamentos longos até Manaus e garante resposta rápida em situações de risco”, afirma.
Estrutura concentrada
Monteiro aponta que a maior parte da estrutura de atendimento ainda está concentrada na capital. Para ela, é fundamental descentralizar os serviços e adaptar soluções tecnológicas à realidade amazônica.
“Medidas protetivas precisam sair do papel e ser efetivamente fiscalizadas”, destaca.
A especialista também chama atenção para os atrasos nas obras da Casa da Mulher Brasileira no Amazonas, iniciadas em março de 2024 e ainda sem conclusão. O espaço deve reunir, em um único local, serviços de segurança, saúde, assistência social e Justiça.
Integração como chave
Para Monteiro, a integração entre os órgãos é um dos maiores desafios no enfrentamento ao feminicídio.
“Não se trata apenas de segurança pública, mas de um problema social, cultural e institucional. Sem mudanças estruturais e culturais, os avanços podem ser perdidos”, avalia.












