Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Nove meses após o acidente que tirou a vida de Giovana Ribeiro da Silva, 29, e da filha que ela esperava, Maria Carolina, o viúvo João Vitor concedeu entrevista exclusiva ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, na qual relembrou momentos com a família e cobrou justiça das autoridades.
O acidente aconteceu em junho na avenida Djalma Batista, uma das principais vias de Manaus, e, segundo laudo do Instituto de Criminalística do Amazonas, foi causado por um buraco na pista.
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Lembranças interrompidas
“Eu só queria um domingo com elas, assistindo um filme, nós três juntos, era só isso”, desabafou João Vitor, relembrando a rotina simples que construiu com Giovana.

Ele recorda o período da gestação como um momento de felicidade e planejamento, do acompanhamento médico à escolha de itens para a chegada da filha. “Quando o médico falou que era uma menina, a gente se olhou e ficou muito feliz. Foi um dos dias mais felizes da minha vida”, disse.
Entre sonhos interrompidos, João Vitor destacava passeios, rotinas diárias e pequenas alegrias familiares. “Eu via outros pais com suas filhas e pensava: já já sou eu ali. Esse futuro me foi tirado”, contou.
Luto constante

A perda ainda é sentida diariamente pelo viúvo. “É como uma agulha que me machuca todos os dias. Você se acostuma, mas nunca deixa de doer”, relatou. Ele precisou deixar o apartamento onde vivia com Giovana, pois cada objeto se tornou um gatilho emocional.
“Estou tentando me reconstruir, principalmente psicologicamente”, afirmou.
Falta de sensibilidade

O servidor público criticou diretamente a administração do prefeito de Manaus, David Almeida, especialmente pela falta de sensibilidade diante da tragédia. Ele relembra um episódio doloroso durante o período de luto.
“A cidade estava paralisada com a morte da minha esposa, e ele postando vídeos de armas. Isso me causou muita dor”, relatou.

João Vitor também questiona promessas do prefeito relacionadas à infraestrutura urbana. “Falaram em milhares de ruas asfaltadas, mas a realidade é outra. A população continua sofrendo”, afirmou.
Outro ponto destacado foi a interrupção de iniciativas de investigação, como a CPI do Asfalto, que, segundo ele, tinha elementos suficientes para apuração. O viúvo demonstra indignação com a falta de avanço.
“Tinham contratos milionários, indícios e mortes. E mesmo assim não foi investigado. O que estão escondendo? Quem estão protegendo?”, questionou.
Dor silenciada e críticas à Câmara Municipal
João Vitor afirma que, apesar da repercussão do caso, nunca se sentiu ouvido pela Prefeitura de Manaus. Ele relembra um episódio na Câmara Municipal, onde tentou se manifestar e foi “calado”.
“Fui à Câmara Municipal há uns meses para ser ouvido, mas apagaram as luzes e me deixaram lá aos prantos. Aquela cena foi horrível”, contou.
Segundo ele, o episódio representa o distanciamento entre a população e os representantes eleitos. “Os vereadores foram colocados lá pelos votos da população, mas eu não fui ouvido. Até hoje, ninguém me ouviu”, afirmou.
Falha estrutural confirmada
Laudos técnicos confirmaram que o acidente foi provocado por um buraco na via, evidenciando falha na infraestrutura urbana. A perícia aponta ausência de pavimentação como causa direta.
“A causa foi a ausência de pavimentação asfáltica. Isso está no laudo e acontece todos os dias em Manaus”, afirmou.
O caso segue em tramitação na Justiça do Amazonas, tanto na esfera criminal quanto cível, incluindo ação contra a Prefeitura de Manaus. João Vitor espera que a decisão judicial tenha impacto além do caso individual.
“A sentença precisa servir para que isso não aconteça com outras famílias”, disse.
Memória da esposa e da filha
João Vitor lembra que Giovana nunca desistiu das coisas que acreditava, característica que o mantém firme na luta por justiça.
“A Giovana sempre foi uma mulher que, mesmo na dificuldade, não voltou atrás. Isso me mantém vivo nessa luta pela memória delas”, destacou.

Ele também comenta que Maria Carolina, caso estivesse viva, já teria quase um ano, e que os sonhos de família foram interrompidos de forma trágica.
“E tudo me foi tirado: esses planos, esses sonhos… a rotina de carinho, afeto, amor e companheirismo”, relatou.
Repercussão
O caso provocou indignação na população e debates sobre a gestão de David Almeida à frente da Prefeitura de Manaus. João Vitor participou de manifestações, incluindo um protesto em agosto de 2025 na avenida Djalma Batista, usando cartazes e megafone para cobrar justiça.

“Vejo que a maior parte da população manauara sentiu a minha dor, porque enfrenta os mesmos problemas de buracos não tampados e negligência, e nada mudou”, concluiu.






