Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Com aprovação provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, nesta sexta-feira, 9/1, os impactos para a Zona Franca de Manaus ainda são incertos, mas especialistas apontam possíveis efeitos diretos, especialmente sobre a competitividade do Polo Industrial de Manaus.
Após mais de duas décadas de negociações, a maioria dos 27 países da União Europeia votou a favor do texto em reunião realizada em Bruxelas. O acordo avançou mesmo diante da resistência de países como França e Irlanda.
O tratado prevê a eliminação gradual de tarifas sobre cerca de 91% do comércio entre os blocos, criando as bases da maior área de livre-comércio do mundo, com um mercado potencial de aproximadamente 700 milhões de consumidores.
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Concorrência maior para a Zona Franca
Consultado pelo Portal RIOS DE NOTÍCIAS, o economista Altamir Cordeiro, ex-vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas, alerta que o principal problema está no aumento da concorrência para o Polo Industrial de Manaus (PIM).
“O principal risco é o aumento da concorrência, pois haverá redução progressiva de tarifas para produtos industriais europeus, que pode chegar a 91% de isenção em até 15 anos”
Altamir Cordeiro, economista

Segundo ele, setores estratégicos da ZFM, como eletroeletrônicos e o polo de duas rodas podem ser diretamente afetados.“Esses produtos, que são os principais fabricados aqui, vão enfrentar a concorrência de itens europeus de alta tecnologia, que entrarão no mercado brasileiro com custos reduzidos”, afirma.
Pressão por qualidade e escala
Além da concorrência, o acordo impõe novos desafios ao modelo da Zona Franca. Altamir destaca que o PIM precisará se adaptar rapidamente no que diz respeito a escala e qualidade dos produtos.
“Haverá maior pressão por qualidade e escala. A ZFM, hoje muito voltada ao mercado interno, terá que aumentar sua produção e elevar substancialmente o padrão de seus produtos para competir em igualdade com o mercado europeu”, explicou Cordeiro.
Maior exigência ambiental
Outro ponto sensível discutido são as exigências ambientais. O tratado inclui cláusulas rígidas de sustentabilidade e combate ao desmatamento, o que pode impactar diretamente o modelo produtivo da região.
“Seremos pressionados a adotar práticas ainda mais ‘verdes’ para manter a imagem e acessar novos mercados. Não podemos esquecer que instituições como o Banco Mundial já questionaram a eficiência dos incentivos atuais diante dessas novas exigências”, alerta o economista.
Riscos no curto prazo e ganhos no longo prazo
Para o economista Dean Athayde, o acordo Mercosul–União Europeia deve ser analisado sob uma perspectiva de tempo. Segundo ele, há assimetrias no curto prazo, mas ganhos estruturais relevantes no longo prazo.

“O acordo prevê a redução de tarifas sobre cerca de 90% das mercadorias. Hoje, por exemplo, tínhamos tarifas de até 35% para automóveis e cerca de 20% para máquinas, equipamentos e produtos químicos europeus. No curto prazo, há um ganho de assimetria, mas no longo prazo o impacto é positivo para produtividade, escala e previsibilidade econômica”
Dean Athayde, economista
Athayde lembra que o acordo ainda precisa passar pelo Parlamento Europeu, mas ressalta que houve forte articulação política, especialmente de países exportadores como Alemanha e Espanha. Ele também chama atenção para o cenário geopolítico global.
“Com os Estados Unidos reforçando políticas protecionistas e tarifas, vemos um realinhamento dos blocos comerciais globais. Esses acordos são uma forma de garantir mercados e escoar produção”, avalia.
O que diz a Suframa
Procurada pelo riosdenoticias.com.br, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) informou que acompanha de perto os desdobramentos do acordo e vê oportunidades para ampliar a participação da indústria amazonense no comércio internacional.
O superintendente Bosco Saraiva destacou que o acordo representa um marco para a inserção do Brasil e do Amazonas nas cadeias globais de valor.
“A celebração do acordo Mercosul-União Europeia significa um marco para a integração do Brasil nas cadeias globais de valor. Hoje, a pauta de exportação do Amazonas para a União Europeia é fortemente composta por minerais, soja e madeiras. Nossa expectativa é elevar a participação de produtos de maior valor agregado, como os bens industrializados”, afirmou.
Bosco Saraiva, superintendente da Suframa

Segundo Saraiva, o mercado europeu impõe elevados padrões ambientais, que podem impulsionar melhorias no parque industrial da região.
“O mercado europeu é extremamente exigente, inclusive em relação a critérios ambientais, e nossos produtos estão aptos a atender esse padrão. Esperamos também um upgrade tecnológico das indústrias do Polo Industrial de Manaus, com maior acesso a tecnologias europeias da Indústria 4.0″, ressatou Bosco.
O superintendente concluiu destacando o potencial de atração de novos investimentos. “Há uma grande oportunidade de atrair empresas europeias interessadas em produzir na Amazônia e usufruir da força da marca associada a produtos sustentáveis”, finalizou.












