Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem defendido publicamente a soberania dos países, especialmente ao criticar ações dos Estados Unidos na Venezuela, o governo brasileiro utilizou uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) para buscar no Peru a ex-primeira-dama Nadine Heredia. Ela foi condenada pela Justiça peruana a 15 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.
Para o analista político da Rede Rios, Diogo da Luz, a situação revela uma contradição entre o discurso presidencial de respeito à soberania e as ações práticas do governo.
“Vemos incoerência no fato de o governo brasileiro repudiar com veemência a ação dos Estados Unidos na Venezuela, por exemplo, e ao mesmo tempo acolher uma ex-primeira-dama condenada por corrupção no Peru”, afirmou.
Segundo informações confirmadas pela FAB, a operação para trazer Nadine Heredia ao Brasil custou R$ 345.013,56 aos cofres públicos. De acordo com reportagem da revista Veja, o voo foi solicitado diretamente pelo presidente Lula, por meio de ofício do Ministério das Relações Exteriores.
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Nadine Heredia desembarcou no Brasil em 16 de abril, acompanhada do filho de 14 anos. Ela foi condenada ao lado do ex-presidente Ollanta Humala pelo recebimento de recursos da Odebrecht e do governo venezuelano de Hugo Chávez para financiar campanhas eleitorais no Peru.
Legalidade versus ética
Para Diogo da Luz, embora haja respaldo legal na operação, a questão central não é jurídica, mas ética. “No caso do Peru, em 1954 foi assinado um acordo entre Getúlio Vargas e o então presidente Manuel Oda, permitindo que essa ação ocorresse. Bastava que o país receptor declarasse essa vontade, e o outro país daria um salvo-conduto. E foi o que aconteceu”, explicou.
“Me parece que há legalidade, sim, mas também muita imoralidade. No caso do Peru, o Brasil alegou perseguição política, algo que não cabe à Justiça brasileira avaliar, já que se trata de uma condenação da Justiça peruana”, analisou.
Diogo da Luz, analista político da Rede Rios

O analista destacou que o asilo foi concedido com base em acordos antigos que permitem salvo-conduto mediante concordância entre os governos. “O Peru aceitou, sabe-se lá por quê, conceder o salvo-conduto. O avião trouxe a ex-primeira-dama legalmente, mas isso não significa que a decisão seja justificável do ponto de vista moral”, pontuou.
‘Venezuelanos perderam soberania muito antes’
Ao comparar o caso com a Venezuela, Diogo faz uma distinção clara. “No caso venezuelano, estamos falando de um ditador indiscutível, responsável por prisões ilegais, mortes e pela fuga de milhões de pessoas do país. A população perdeu sua soberania muito antes de qualquer ação externa”, afirmou.
Para ele, defender a soberania de regimes autoritários ignora o sofrimento da população. “Não consigo entender governantes que defendem ditadores em nome da soberania, quando quem perdeu autonomia foi o povo. Aí está a grande imoralidade”, disse.
Diogo também ressaltou que boa parte das críticas à ação americana na Venezuela ignora a opinião dos próprios venezuelanos. “Quem não é ligado ao regime Maduro está comemorando. Hoje, existe medo e falta de informação dentro da Venezuela, porque o aparato autoritário ainda permanece”, concluiu.












