Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Na rotina marcada pelo excesso de tarefas,cobranças constantes e um fluxo ininterrupto de informações, muitas pessoas passam a funcionar no “piloto automático”, ignorando sinais sutis de sofrimento psíquico e ansiedade.
Especialistas ouvidas pelo Portal RIOS DE NOTÍCIAS, em alusão ao Janeiro Branco, mês dedicado à promoção da saúde mental e emocional, alertam que esse comportamento, quando mantido ao longo do tempo, pode evoluir para quadros de esgotamento e outros problemas de saúde mental.
“Essa rotina acelerada acaba funcionando como uma anestesia emocional. Em meu consultório, vejo muitas pessoas que seguem funcionando no ‘piloto automático’, cumprindo tarefas, trabalhando, cuidando de tudo e de todos, mas sem perceber que estão exaustas. O corpo e a mente dão sinais: cansaço constante, irritação, falta de prazer”, diz a terapeuta psicanalista Samiza Soares.

Autocobrança e redes sociais
A psicanalista explica que esses quadros se tornam ainda mais frequentes diante das comparações feitas nas redes sociais, da autocobrança constante e dos recortes irreais da vida alheia.
“Nos atendimentos, é comum ouvir relatos de pessoas que se sentem insuficientes ao se compararem com o que veem nas redes sociais. Essa comparação constante alimenta uma autocobrança cruel, baseada em recortes irreais da vida do outro. A pessoa começa a acreditar que está sempre atrasada na própria vida”, afirma Samiza.

(Foto: Reprodução/Redes sociais)
A psicóloga Déborah Pacheco explica que a pressão interna e a frustração contínua não afetam apenas as emoções, mas também se manifestam no corpo, com sintomas como dores estomacais e acidez.
“Quando a gente não cuida da emoção, ela encontra outro caminho. Dor no corpo, tensão constante, insônia, ansiedade, problemas no estômago… nada disso é ‘do nada’. No comportamento, surgem a irritação fácil, o isolamento, a falta de prazer, aquela sensação de estar sempre no limite. O corpo fala aquilo que a pessoa não conseguiu dizer em palavras”, diz a especialista.

Autocuidado como estratégia
Em meio a uma rotina marcada por excessos de estímulos visuais e mentais, a psicóloga afirma que estratégias simples e práticas de autocuidado podem ajudar a manter o equilíbrio emocional, mesmo em períodos de maior pressão.
“Autocuidado não é fazer mais coisa. É parar de se abandonar. Às vezes é dormir melhor, diminuir estímulos, silenciar um pouco as redes, respeitar limites. É criar pequenos espaços de escuta: respirar, escrever o que sente, caminhar sem pressa. É continuar sendo você sem adoecer”, explica ela.
Ainda assim, a especialista reforça que o momento certo de procurar ajuda é quando a pessoa percebe que está apenas funcionando, mas não vivendo, sendo levada por uma rotina exaustiva.
“O momento certo é quando o cansaço vira rotina, quando o sofrimento começa a se repetir, quando você percebe que está funcionando, mas não está vivendo. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É um gesto de responsabilidade emocional. A terapia é um espaço onde aquilo que foi engolido pode, finalmente, ser falado. E, quando a gente fala, algo começa a se organizar por dentro”, ressalta a especialista.
Ações para cuidar da saúde mental
O aumento dos transtornos mentais reforça a importância de buscar apoio e adotar medidas de cuidado emocional. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o Brasil lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com 9,3% da população afetada, o que representa cerca de 18 milhões de brasileiros.
A depressão também é uma preocupação crescente e foi agravada pela pandemia de Covid-19, que resultou em um aumento de 25% nos casos de transtornos mentais no país.
Para quem deseja buscar tratamento adequado, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece serviços gratuitos e acessíveis:
- Unidades Básicas de Saúde (UBS) – São a porta de entrada do SUS. O atendimento começa com um clínico geral, que pode encaminhar o paciente para acompanhamento com psicólogo ou psiquiatra.
- Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) – Oferecem atendimento especializado por equipes multidisciplinares, organizados conforme a faixa etária e demandas específicas, como o CAPS Infantil (CAPSi) e o CAPS para usuários de álcool e outras drogas (CAPSad).
- Clínicas-escola de Psicologia – Universidades que possuem cursos de Psicologia mantêm clínicas-escola, com atendimentos gratuitos ou a preços acessíveis, realizados por alunos supervisionados.
- Centro de Valorização da Vida (CVV) – Disponibiliza apoio emocional 24 horas por dia, por meio do telefone 188 ou atendimento online, oferecendo escuta e acolhimento em momentos de sofrimento emocional.












