Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – “O novo aterro é viável, mas insuficiente”, avaliou a engenheira florestal Fabiana Rocha, especialista em gestão de resíduos, ao explicar que, mesmo com promessa de modernização, o projeto de um novo aterro sanitário, anunciado pela Prefeitura não responde à crise estrutural de despejo do lixo em Manaus.
O município, segundo a especialista, continua apostando em soluções paliativas para um problema que exige mudanças de fundo, planejamento técnico e políticas permanentes de redução, separação e tratamento dos resíduos.
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Fabiana explica que os aterros sanitários, por mais modernos que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. “Eles têm custos operacionais e socioambientais pesados. Aterro é sempre adiamento do problema se não houver redução da fração reciclável e tratamento adequado dos resíduos na origem”, explica.

O problema, diz ela, vai além da capacidade física do aterro, está na forma como Manaus produz, coleta e descarta o que consome. A engenheira lembra que o aterro municipal atual, construído nos anos 2000, já estourou todos os limites e só funciona por causa de prorrogações judiciais.
“Tivemos várias. Era pra ter fechado em 2014, e não aconteceu. Temos um aterro no limite, que não aguenta mais o volume. É um problema muito pesado”, desabafa. De acordo com ela, em uma cidade que produz mais de 2,5 mil toneladas de lixo por dia, a falta de alternativa coloca Manaus na beira de uma emergência sanitária.
O novo aterro
O novo aterro está localizado no km 19 da AM-010, em área que já é alvo de denúncia e investigação ambiental. Ele está projetado para receber entre 2.060 e 2.400 toneladas por dia, com vida útil estimada entre 15 e 20 anos.
Fabiana reconhece que a obra é necessária para evitar o colapso imediato, mas alerta: “não pode nascer com a mesma lógica do atual“. Isso porque o aterro sanitário anunciado como extensão do atual aterro municipal, terá prazo de apenas dois anos, com término em 2028.


“Autorizar um aterro moderno exige cuidado exagerado. Precisa ter cláusulas contratuais rígidas pra não acontecer o que está acontecendo agora”, afirma. Para ela, a falta de fiscalização e acompanhamento técnico ao longo do tempo foi motivo para o esgotamento precoce do aterro existente.
Ações de curto prazo
Sem políticas paralelas, diz a especialista, qualquer nova estrutura será consumida rapidamente pelo ritmo de produção de resíduos da capital. Ela defende ações de curto prazo consideradas mais urgentes, como implantação de programas-piloto de coleta seletiva, campanhas de educação ambiental e incentivos econômicos para redução da geração de resíduos.
“Programas rápidos de coleta seletiva seriam muito interessantes no curto prazo. A população precisa entender que tratamento adequado começa em casa“, reforça.
Sistema integrado de gestão de resíduos
Mas é no longo prazo que mora o verdadeiro nó da questão, apontou a engenheira. Fabiana defende que Manaus precisa migrar para um sistema integrado de gestão de resíduos, com prioridade para redução na fonte, responsabilidade estendida do produtor e logística reversa.
“A alternativa não é só um aterro. É gestão integrada: coleta seletiva universal, compostagem da fração orgânica, formalização dos catadores, recuperação de recursos e tratamento adequado do chorume”
Fabiana Rocha, engenheira florestal
Ela menciona os caminhos viáveis e cada vez mais urgentes, como a compostagem comunitária em feiras e mercados, melhoria das bacias de chorume e ampliação de pontos de entrega voluntária desse lixo.
Polêmica na obra
A construção do novo aterro acontece com críticas e uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) sobre possíveis irregularidades na obra, que segundo denúncia do deputado federal Amom Mandel, está sendo feita em Área de Preservação Permanente do Igarapé Matrinxã.
Moradores relatam que as obras começaram sem consulta pública, a menos de 60 metros de casas, e que a água de poços artesianos já apresenta mudanças de cor e cheiro, sinais de possível contaminação. A denúncia também destaca a proximidade do aterro com a zona de proteção aeroportuária do Aeroporto Eduardo Gomes, o que representa risco operacional.


A especialista reforça que sem integração, o novo aterro nasce fadado ao esgotamento. “Desativar imediatamente o aterro atual seria colocar a cidade em emergência sanitária. Mas manter o mesmo modelo sem políticas de redução e segregação é só adiar o colapso”, conclui.












