Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O Amazonas foi apontado como o estado menos seguro do país para dirigir, segundo estudo divulgado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV). A pesquisa, que avaliou 26 estados e o Distrito Federal, utilizou o projeto Indicadores Rodoviários Integrados de Segurança (IRIS), com base em sete pilares do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans).
Entre os critérios analisados estão: gestão da segurança no trânsito, educação, normatização e fiscalização, vias seguras, segurança veicular, vigilância e atendimento às vítimas, além dos indicadores de mortalidade.
Enquanto o Distrito Federal lidera o ranking com a melhor pontuação (4,00), seguido pelo Rio Grande do Sul (3,86) e por Goiás, Paraná e Rio de Janeiro (3,71), o Amazonas aparece na última colocação, com apenas 1,86 pontos.

Norte em destaque negativo
A região Norte, de modo geral, apresentou desempenho preocupante em segurança viária. Pará (2,14), Amapá e Roraima (2,29 cada) também figuram entre os piores índices. Por outro lado, estados como São Paulo (3,57), Minas Gerais (2,86) e Bahia (2,71) ficaram em posições intermediárias.
Insegurança estrutural
Em entrevista ao Portal Rios de Notícias, o especialista em trânsito Manoel Paiva destacou que os resultados refletem disparidades estruturais entre os estados brasileiros. Ele aponta que três fatores foram fundamentais na avaliação: a integração dos municípios ao Sistema Nacional de Trânsito (SNT), a qualidade dos dados disponíveis no Registro Nacional de Entidades de Trânsito (Renaest) e a transparência nos portais dos Detrans.
Segundo Paiva, grande parte dos municípios amazonenses ainda não está formalmente integrada ao SNT, o que impede a execução de funções essenciais como engenharia de tráfego, educação para o trânsito e fiscalização.
“Mesmo após mais de 25 anos da criação do Código de Trânsito Brasileiro, muitos municípios permanecem sem autonomia para gerenciar o trânsito local”, reforça.

Falhas de fiscalização
Outro ponto crítico, segundo o especialista, é a fiscalização. Paiva destaca que nenhuma rodovia estadual no Amazonas conta com aparelhos de medição de velocidade, sejam fixos ou móveis. Atualmente, apenas a Polícia Rodoviária Federal mantém o controle em rodovias federais como a BR-174 e a BR-319.
“As diferenças de cobertura tecnológica e eficiência na aplicação da lei entre os estados ficam evidentes. Isso compromete a capacidade de registrar e coibir infrações, especialmente o excesso de velocidade”, explica.
Necessidade de investimentos
Para melhorar os índices, Paiva defende maior investimento em infraestrutura e a municipalização do trânsito. Hoje, mais de 50% dos municípios do Amazonas ainda não gerenciam o transporte local.
Entre as medidas necessárias, ele cita:
- conservação das rodovias estaduais;
- recuperação de pavimento;
- sinalização horizontal e vertical adequada;
- implantação de controladores de velocidade;
- melhoria na coleta de dados sobre acidentes.
“O estado precisa tornar os índices e metas de redução de acidentes públicos e transparentes, além de investir em programas de vigilância, saúde e atendimento às vítimas”, reforça.
Educação e conscientização
No eixo da educação, Paiva avalia que campanhas pontuais não são suficientes. Ele defende a implementação de políticas permanentes de treinamento de condutores, ciclistas e pedestres, bem como a requalificação de categorias profissionais como mototaxistas, motoboys, taxistas, fretistas e motoristas de carga.
“É preciso mudar a chave da segurança viária. O respeito às leis de trânsito deve abranger pedestres, pessoas com deficiência, idosos, crianças, gestantes e os próprios condutores. Só assim conseguiremos reduzir mortes e tornar o trânsito mais humano”, conclui.






