Caio Silva e Júlio Gadelha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A falta de valorização de artistas locais em grandes eventos culturais, como o #SouManaus Passo a Passo 2025, tem gerado insatisfação entre profissionais da cena amazonense. A crítica recorrente é de que, enquanto nomes nacionais recebem cachês altos e ampla visibilidade, músicos e bandas da região enfrentam barreiras para se apresentar e são sistematicamente desvalorizados.
O vocalista da banda Não Existe Saudade em Inglês, Paulo Henrique, relatou frustração por ter sido novamente impedido de se apresentar no festival neste ano. A justificativa teria sido que não poderiam repetir atrações, mas, segundo ele, artistas nacionais, como Joelma, já se apresentaram em edições consecutivas do evento.
Diferença de tratamento
Para Paulo Henrique, a disparidade entre os cachês pagos a artistas locais e nacionais é perceptível:“É revoltante que o maior evento de artes integradas da região Norte não reconheça e não remunere de forma justa quem produz arte aqui. A Prefeitura tem uma visão mercadológica, pensa apenas em números. Para eles, trazer quem está no topo do Spotify é mais lucrativo do que dar espaço a quem canta sobre as raízes indígenas e a cultura do Norte”, criticou.
O músico também apontou falhas no processo de seleção: artistas locais precisam se submeter a curadorias e cadastros burocráticos, enquanto nomes de fora são convidados diretamente. “É um processo demorado, bagunçado e que desmotiva”, afirmou.


Estrutura e visibilidade
A cantora, atriz e produtora cultural Vívian Oliveira destacou a segregação que os artistas locais enfrentam dentro do festival. Ela afirmou que poucos conseguem se apresentar nos palcos principais, que a estrutura deixa a desejar e que os cachês são muito inferiores aos pagos aos artistas nacionais.
“A gente sempre foi tratado como alguém menor no line-up do festival. São poucos os que conseguem se apresentar nos palcos grandes, nos principais. Existe essa segregação nesse sentido. O cachê nem se fala: também é muito abaixo. A estrutura deixa muito a desejar. Sempre colocam os artistas locais espalhados pelos palcos menores. A sonorização não é boa, dá muita interferência e é bastante ruim“, relatou.
Além disso, Oliveira criticou a disparidade na divulgação: enquanto artistas nacionais recebem ampla visibilidade em outdoors, mídia impressa e redes sociais, os locais ficam restritos às redes sociais.
“Você vê os outdoors de atrações nacionais, gospel, espalhados pela cidade. A divulgação para artistas locais se limita às redes sociais”, relatou.


Talentos desvalorizados
Segundo os artistas, a falta de oportunidades leva bandas a migrarem para outras regiões. Paulo Henrique citou a banda Jambu, que deixou Manaus mesmo tendo público consolidado, ressaltando que grupos locais acabam ficando de fora de vitrines importantes como o Sou Manaus, que deveria divulgar a produção regional.
Ele ainda comparou a experiência em Manaus com festivais de outros estados, como o Festival Casarão, em Rondônia, onde destaca maior valorização, cuidado com pagamento e estrutura técnica. Em Manaus, porém, houve casos de falta de transparência:
“No evento Passo a Passo, recebemos o pagamento via Pix de um número desconhecido, sem nota fiscal ou contrato. De uma instituição pública, isso é inaceitável”, afirmou.
A Manauscult, responsável pelo evento, não divulgou os valores exatos dos cachês dos artistas nacionais. Segundo levantamento da Rede Rios de Comunicação, os 20 artistas nacionais anunciados receberão aproximadamente R$ 14,1 milhões, sem incluir os cachês dos artistas locais.
Críticas ignoradas
Ignorando as críticas, o prefeito David Almeida se orgulhou ao dizer e repetir que o maior depoimento de gratidão que já recebeu não foi por obras, mas por ‘fazer cultura’.
O diretor-presidente da Manauscult, Jender Lobato, também não levou as críticas em consideração. Em discurso, na Câmara Municipal de Manaus nesta semana, ele se limitou a dizer que o festival “oferece dignidade à classe artística”.
Posicionamento oficial
O Portal Rios de Notícias entrou em contato com a Prefeitura de Manaus e a Fundação Municipal de Cultura e Artes (Manauscult) sobre a ausência de artistas locais no festival, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. Tentativas de contato com a Associação de Músicos e Compositores do Estado do Amazonas também não foram atendidas. O espaço segue aberto para manifestação dos órgãos citados.






