Um casal — a mulher grávida como passageira — trafegava de moto na noite de domingo em uma das principais avenidas da capital amazonense. Ao passar por um trecho onde havia um buraco, o condutor — o marido — perdeu o controle, e ambos caíram. A mulher morreu. A bebê também não resistiu. O marido teve fraturas nas pernas.
O caso comoveu a cidade. Mas aquele que deveria demonstrar empatia, respeito e solidariedade não o fez. Sim, o prefeito, representante direto eleito pela maioria do povo. Um silêncio incômodo, difícil acreditar que tenha sido aconselhado para isso.
O prefeito não falou, mas a prefeitura — por meio de nota — lamentou “profundamente” o ocorrido e justificou que o buraco seria “consequência de um dos períodos chuvosos mais rigorosos dos últimos anos”.
O prefeito não falou, mas seu irmão, deputado estadual, afirmou: “É um absurdo querer fazer alarde e colocar a culpa na prefeitura por causa de um acidente”. Será mesmo absurdo responsabilizar uma administração que deveria zelar pela segurança das vias públicas e evitar tragédias como essa?
O prefeito não falou, mas oportunidade não lhe faltou. Menos de 24 horas após a fatalidade, concedeu entrevista coletiva para falar sobre a meia passagem estudantil e — pasmem — não mencionou uma única palavra de solidariedade. Em suas redes sociais, o silêncio incômodo permanece.
O “buraco em questão”, segundo a nota oficial, “foi corrigido na manhã de segunda-feira, 23/6” — sim, na manhã seguinte à tragédia. Mas as duas vidas perdidas não voltarão. Tampouco o sonho de uma família em formação.
Já escrevi antes por aqui: comunicação pública e comunicação política caminham lado a lado. Afinal, nem só com asfalto se tapa um buraco em via pública. E isso não é apenas sobre buracos. O mínimo de empatia aos cidadãos, especialmente em solidariedade à Giovana Ribeiro e à Maria Carolina, é questão de humanidade.
Aliás, concluo este texto expressando minha solidariedade à família de Giovana e ao João Vitor. Também sou pai e marido. Por isso, me tocam profundamente as palavras do seu comovente desabafo no velório da esposa e da filha:
“Ninguém nessa cidade é mais culpado do que o senhor, prefeito. O senhor vai ser pai. Imagina a dor que é se colocar no meu lugar?”
É. Esse silêncio também comunica. E, assim como um buraco ignorado na pista, poderia ser corrigido com um pouco de empatia e humanidade.