Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O uso excessivo de telas por crianças e adolescentes pode desencadear diversos problemas neurológicos, psicológicos e comportamentais. De acordo com a Associação Amazonense de Pediatria (Saped), a dependência de jogos eletrônicos e redes sociais aciona os mesmos mecanismos cerebrais envolvidos nos vícios em substâncias químicas, como as drogas.
Em entrevista ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, a presidente da Saped e neuropediatra, Marília Abtibol, explicou que o uso contínuo de smartphones, tablets e computadores se tornou uma fonte constante de estímulos rápidos. A cada curtida, comentário ou atualização no feed, o cérebro libera dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e recompensa.
Essa liberação repetida de dopamina gera um ciclo vicioso semelhante ao observado em dependências químicas. O efeito é ainda mais preocupante entre crianças e adolescentes, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento, tornando-os mais vulneráveis a esse tipo de estímulo.
“A dependência da internet ativa os mesmos mecanismos cerebrais envolvidos nos vícios em drogas. As gratificações como pontos em jogos ou likes nas redes sociais, passam pelos circuitos de recompensa e dopamina. Muitos comportamentos tornam-se impulsivos e automáticos, como forma de aliviar tédio, estresse ou sintomas depressivos”, afirmou a neuropediatra.

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A especialista também alertou para os prejuízos causados pelo uso de telas próximo ao horário de dormir. A exposição à luz azul emitida pelos aparelhos reduz a produção de melatonina, hormônio responsável por regular o sono, o que pode provocar insônia e sonolência diurna, afetando a memória e o aprendizado.
“A luz azul das telas prejudica o sono e leva à sonolência diurna, afetando diretamente o rendimento escolar e a capacidade de concentração. Além disso, o uso prolongado de dispositivos eletrônicos contribui para o sedentarismo, ganho de peso, má postura, dores nas costas e no pescoço, além de sintomas como fadiga ocular, olhos secos e dores de cabeça”, explicou ela.

estímulos rápidos (Foto: Maskot/Getty Images)
Impacto Emocional
A psicóloga Déborah Pacheco destacou o impacto emocional do uso exagerado das redes sociais. Segundo ela, cresce o número de casos de depressão, ansiedade e até automutilação, muitas vezes impulsionados por comparações irreais com a vida idealizada que se apresenta online.
“A exposição prolongada a telas está diretamente associada ao aumento de quadros de depressão, ansiedade, baixa autoestima e automutilação em crianças e adolescentes. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que mais de 80% dos adolescentes não praticam atividade física suficiente, pois passam horas excessivas diante das telas. O Brasil está entre os países com maior média diária de uso de celular por adolescentes: mais de sete horas por dia”, afirmou a psicóloga.

Para os pais que já identificaram sinais de dependência ou alterações no comportamento dos filhos relacionados ao uso da internet, a neuropediatra recomenda diálogo aberto e ações concretas de supervisão.
“É essencial criar um ambiente seguro para conversas francas. Faça uma supervisão respeitosa, com limites claros e equilibrados. E seja o primeiro exemplo, praticando o uso consciente da internet. Ao notar sinais de descontrole, busque apoio com profissionais da saúde mental, como psicólogos, psiquiatras e neuropediatras”, orientou a neuropediatra.
A Saped reforça a importância de estabelecer limites no tempo de exposição às telas, sempre com supervisão dos responsáveis e de acordo com a faixa etária. As recomendações são:
- Crianças menores de 2 anos: não devem ter acesso a telas;
- Crianças de 2 a 5 anos: no máximo 1 hora por dia, com supervisão constante;
- Crianças de 6 a 10 anos: entre 1 e 2 horas por dia, com supervisão;
- Adolescentes de 11 a 18 anos: de 2 a 3 horas por dia, evitando o uso prolongado no período noturno.






