Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Entre as dez séries mais assistidas da história da Netflix, “Adolescência” se tornou um fenômeno global ao retratar a história de um menino de 13 anos acusado de matar uma colega de escola, levando a família, a terapeuta e o investigador do caso a se perguntarem: o que realmente aconteceu?
Com quatro episódios e acumulando 114,5 milhões de visualizações, o enredo gerou intensos debates nas redes sociais e impactou o público ao expor uma realidade que muitos desconhecem ou ignoram: os riscos aos quais adolescentes e crianças estão expostos na internet.

Segundo a terapeuta psicanalista Samiza Soares, em entrevista ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, uma das cenas mais marcantes da série mostra os pais acreditando que o filho estava “seguro” por estar em casa. No entanto, ele estava imerso em conteúdos impróprios e conversando com pessoas perigosas pela internet.
“Isso mostra que não basta estar fisicamente perto, é preciso estar emocionalmente presente. Supervisão não é vigiar, é participar. Cada criança tem um tempo, e o acesso a celulares e redes sociais precisa ser gradual e acompanhado. Antes de entregar um celular, é importante que a criança entenda o que são limites, privacidade e responsabilidade”, afirma a psicanalista.

Bullying virtual e a reprodução da violência
A terapeuta também destaca que a série aproxima o espectador da realidade ao apresentar um protagonista comum, vítima de bullying virtual e participante de fóruns online onde acaba replicando a mesma violência contra outras pessoas.
“Na série, vemos adolescentes sendo humilhados online, e o sofrimento dele crescendo em silêncio. Isso acontece porque muitos têm medo de contar e serem julgados ou punidos. A dica principal é criar um ambiente em que os filhos sintam segurança para falar. Perguntar como foi o dia, o que estão vendo no TikTok ou com quem estão jogando online pode parecer simples, mas cria proximidade”, reforça Samiza Soares.

A influência dos fóruns e a cultura incel
Outro ponto de destaque na série é a citação ao termo incel, popularizado nos anos de 1990. Trata-se da abreviação de “celibatários involuntários” (involuntary celibates, em inglês), referindo-se a pessoas que se descrevem como incapazes de manter relacionamentos ou vida sexual, embora desejem isso.
Em manifestos publicados em fóruns como Reddit e 4chan, os incels culpam abertamente as mulheres pelo seu “fracasso sexual”, partindo da ideia de que todas seriam interesseiras, preocupadas apenas com aparência e dinheiro.

Com o avanço das redes sociais, esse tipo de discurso se espalhou globalmente. Um exemplo disso é um influenciador britânico-americano, Andrew Tate, que se autoproclama misógino e soma milhões de seguidores nas redes socias.
“Esses grupos se alimentam de discursos de frustração e culpa externa, reforçando solidão e raiva. Linguagens e temas repetitivos como ‘todas as mulheres são…’ ou ‘a sociedade me nega’ indicam a absorção dessas ideias. Essa influência faz mal porque aprofunda a baixa autoestima, a desesperança e a raiva, dificultando relacionamentos saudáveis e aumentando o risco de quadros depressivos ou ansiosos”, explica Samiza Soares

Impactos psicológicos das redes sociais
A psicóloga Déborah Pacheco alerta para o crescimento de quadros de depressão, ansiedade e automutilação, impulsionado pelas redes sociais, que reforçam a exibição de momentos perfeitos e conquistas, contribuindo para uma distorção da realidade.
“A exposição prolongada a telas está diretamente associada ao aumento de quadros de depressão, ansiedade, automutilação e baixa autoestima em crianças e adolescentes. Um estudo da OMS revelou que mais de 80% dos adolescentes não praticam atividade física suficiente por passarem tempo demais em frente às telas. O Brasil está entre os países com maior média diária de uso de celular por adolescentes: mais de 7 horas por dia”, afirma Déborah.

Ela orienta que os pais devem ficar atentos a sinais de alerta nos filhos, a partir de mudanças em comportamentos como:
- Alterações no sono e apetite;
- Isolamento excessivo;
- Irritabilidade ou nervosismo após o uso do celular;
- Queda no rendimento escolar;
- Ansiedade ou depressão sem causa aparente.
A partir desses sinais, é necessário procurar atendimento especializado para iniciar um acompanhamento adequado.
“Quando há queda no rendimento escolar ou social, quando o adolescente começa a falar em não querer viver, apresenta autocobrança excessiva, autoestima constantemente baixa, se mutila ou tem crises de ansiedade após situações online — é preciso observar. Verificar se os conteúdos consumidos, como séries e filmes, envolvem violência, desafios perigosos ou exposição íntima também é importante”, complementa.
Infrações cometidas por adolescentes em Manaus
Segundo informações a Delegacia Especializada em Apuração de Atos Infracionais (Deaai), nos quatro primeiros meses de 2025, foram registrados 239 procedimentos. Em 2024, foram 986, e em 2023, 1.126 ações, o que representa uma diminuição de cerca de 12%.
Entre as infrações mais comuns estão o tráfico de drogas, ameaças derivadas de bullying e estupro de vulnerável. A delegada Joyce Coelho destaca que muitas dessas práticas têm origem em convites feitos pela internet, por amizades ou no ambiente escolar.
“Existe, sim, uma grande influência da questão social. Principalmente nos crimes cibernéticos, percebemos que quanto mais favorecido socialmente, mais acesso o jovem tem às mídias, ao conhecimento e à tecnologia. Já no caso das ameaças, elas também acontecem por convite no ambiente escolar e até amizades”, explica a delegada.

A delegada reforça que o acolhimento deve vir junto com o controle, principalmente no caso de menores, e que o apoio dos pais é indispensável para um ambiente seguro.
“Recomendamos um acompanhamento muito próximo, porque muitos pais acreditam que seus filhos estão seguros no quarto, diante das telas, mas frequentemente nem conhecem de fato seus adolescentes. Quando se deparam com uma conversa no celular, se assustam – a linguagem já é diferente e a comunicação se perde. Isso cria um abismo é muito perigoso“, alerta a delegada Joyce Coelho.
Na série, o adolescente Jamie (atuação de Owen Cooper), é detido aos 13 anos. A delegada informa que, a partir dos 12 anos, menores já podem responder por atos infracionais e estar sujeitos a medidas socioeducativas — que podem incluir internação em estabelecimento especializado (mas não presídio), com tempo máximo de 3 anos.
“É importante esclarecer que, a partir dos 12 anos, o adolescente pode ser responsabilizado por atos infracionais. Ele será apresentado e poderá cumprir medidas socioeducativas. Muitos acham que não serão punidos e, por isso, cometem atos ilícitos. Falta orientação desde a família”, afirma ela.






