Gabriela Brasil – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O crime bárbaro que vitimou o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips completa um ano nesta segunda-feira, 5/6. Desde o acontecimento do trágico crime até hoje, o quadro de insegurança e temor, que matou Bruno e Dom ainda toma conta da região do Vale do Javari, no Amazonas.
O trabalho de Bruno, segundo o procurador jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Eliesio Marubo, era de “grande aproximação e de convivência com as comunidades indígenas”. Esse convívio diário recheado de diálogo e respeito com as populações era, para Marubo, o que mais destacava a atuação do indigenista Bruno.
“Ele era um parceiro dos povos indígenas e da região”, relembra Eliesio Marubo, sobre o amigo indigenista e ex-servidor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Bruno Pereira.
O trabalho de Bruno Pereira como servidor público resultou em uma reputação ilibada. Todos têm dito, e eu tenho reforçado que hoje nós não temos um indigenista à altura dele. A relação dele [Bruno] com as comunidades era sempre muito boa, inclusive, de aproximação com vários povos da região, sobretudo um povo de recém contato, os korubo, Maiuruna e os Kanamiri. O povo Kanamiri ficou conhecido com o vídeo do Bruno cantando em Kanamiri. O legado de Bruno é mais trabalho e fortalecimento da nossa gente. Ele nos incentivou a fortalecer a luta e defender nosso povo e nosso território. Enquanto que Dom representa a imprensa e o direito de informar”
Eliesio Marubo, procurador jurídico da Univaja
Bruno foi visto pela última vez com o jornalista Dom Phillips na comunidade de São Gabriel, próxima ao município de Atalaia do Norte, a 1.136 quilômetros de Manaus. Na ocasião, ele acompanhava o jornalista Dom, que planejava escrever um livro sobre como salvar a Amazônia.
Após o desaparecimento deles, foram quase duas semanas de buscas na região até que fosse encontrado os corpos do indigenista e do jornalista.
Sobre Bruno e Dom
Em outubro de 2019, Bruno foi exonerado do cargo de Coordenação-Geral de Indígenas Isolados e de Recente Contato da Funai, um mês após ter participado do projeto da operação da Polícia Federal de desarticulação de balsas para mineração em terras indígenas no Vale do Javari.
Em fevereiro de 2020, o indigenista pediu licenciamento da Funai por não concordar com a nova política indígena implementada no governo Bolsonaro.
Com diversas reportagens sobre a Amazônia, os trabalhos de Dom Phillips também chegaram ao procurador jurídico da Univaja, Eliesio Marubo, que conheceu brevemente o jornalista inglês.
“Eu tenho dito que ele [Dom Phillips representa a liberdade da imprensa, e o dever de informar. Ele era bem conhecido na nossa região. Já tinha ido outras vezes lá [no Vale do Javari] e tinha uma aproximação muito grande com as comunidades”, destaca Eliesio Marubo
Omissão
O crime brutal contra o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips escancarou para o mundo a grave violência na região do Vale do Javari em razão da presença de madeireiros, garimpeiros e pescadores ilegais, os quais destroem os recursos naturais da floresta amazônica, e ameaçam diretamente as comunidades e os povos indígenas da região.
Ao portal RIOS DE NOTÍCIAS, o procurador jurídico Eliesio Marubo destacou que, três meses antes do caso, ele recebeu um bilhete de ameaça em seu escritório direcionado ao Bruno Pereira e outros colaboradores da Univaja. “Esta morte já estava se desenhando a partir daí”, salientou.
“A região sempre foi conflituosa e passou a ter mais conflitos a partir do aumento das atividades da Univaja por meio da Equipe de Vigilância – EVU. Este tipo de conflito já estava desenhado”, enfatizou.

Pouco caso
Mesmo com a grande repercussão dos assassinatos de Bruno e Dom, Eliesio contou que o Governo Federal pouco fez para frear as atividades ilegais no Vale do Javari.
“Nós [Univaja] já publicamos exaustivamente [sobre o conflito]. Os órgãos tomaram conhecimento de tudo, mas pouco produziram. Nós trouxemos a problemática e a saída com informações contundentes e possibilidades de atuação”, informou.
A Univaja foi integrante do Grupo de Transição (GT) do Governo Federal. Em sua contribuição, de acordo com Eliesio Marubo, a organização salientou as prioridades dos 100 dias de governo. No entanto, o procurador jurídico apontou que “nada foi feito”.
“Essa é uma cobrança que estamos fazendo não só nos tribunais do Brasil, mas nos tribunais internacionais. Essa omissão por parte do governo brasileiro atenta contra os princípios fundamentais da República Federativa do Brasil que é o direito à vida, educação e segurança”, ressaltou.
Nota
O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) disse, por meio de nota, que esteve presente na Assembleia dos Povos Indígenas do Vale do Javari realizada em fevereiro de 2023, e descreveu a reunião como uma retomada das ações do Governo Federal em ações na região.
“A presença do Estado no Vale é primordial para a proteção dos povos indígenas e dos indigenistas e ambientalistas que trabalham ali, somente assim ,conseguiremos pôr fim nesse ciclo de violência que resultou no assassinato de Dom e Bruno. A biodiversidade, assim como toda variedade de povos indígenas do Vale do Javari, precisa ser protegida e ter sua segurança garantida”, disse a ministra Sonia Guajajara.
Retrospectiva

Relembre
No dia 3 de junho de 2022, Bruno Pereira saiu do município de Atalaia do Norte para participar de reuniões com lideranças indígenas em diversas comunidades. O jornalista Dom, que desejava realizar entrevistas com os moradores locais, aproveitou para seguir com Bruno na viagem. A última parada foi na região do Lago do Jaburu.
Dois dias depois, Bruno e Dom pegaram uma lancha da Univaja com o destino à Atalaia do Norte, mas nunca chegaram ao local.
Sem notícias da dupla, em poucas horas, a Univaja acionou equipes para iniciar a busca pelos desaparecidos. Somente no dia 6 de junho que os órgãos públicos passaram a atuar nas buscas.
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento para apurar o caso e acionou as Forças de Segurança estaduais e federais. A Polícia Civil do Amazonas também instaurou um inquérito.
Ao longo dos dias, a esperança de encontrar Bruno e Dom com vida foi diminuindo até que o caso ganhou repercursão no noticiário nacional e internacional. A hipótese de um possível assassinato também foi aumentando até que chegou a confirmação.
Nas investigações, os órgãos envolvidos chegaram no primeiro suspeito: Amarildo da Costa Pereira, também conhecido como Pelado.
No dia 12 de junho, indícios que apontavam o envolvimento de ‘Pelado’ no crime, como o sangue das vítimas no barco que o suspeito usava e também pelos relatos de testemunhas, Amarildo acabou confessando o crime e outros suspeitos foram surgindo. Ele e o irmão Oseney da Costa foram presos preventivamente. No dia 15 de junho, os corpos de Bruno e Dom foram encontrados.






