Gabriel Lopes – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Em meio as mudanças climáticas, ataques constantes e desamparo por parte do poder público, indígenas têm encontrado nas redes sociais ferramentas onde podem narrar suas histórias, expressar suas demandas e fortalecer sua identidade cultural.
No Dia Nacional dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, o Portal RIOS DE NOTÍCIAS conversou com duas ativistas indígenas amazonenses, que destacaram a importância de se reconhecer e valorizar a vida e as lutas dos povos originários brasileiros.
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A bióloga, ativista e comunicadora indígena, Samela Sateré Mawé, tem como principal atividade nas redes sociais desmitificar e desconstruir pautas relacionadas aos povos originários e também a questões ambientais.
“Só o fato de nós povos indígenas estarmos em um ambiente em que as pessoas acham que não é para nós, que é o ambiente da internet, da tecnologia, da utilização de um celular, de um computador, já é uma forma de desmistificar muitas coisas em relação aos nossos povos”, disse Samela.
Em suas redes sociais, a jovem cria conteúdos voltados à proteção dos costumes indígenas. É uma mistura de conteúdos culturais, com posts, “caixinhas” de perguntas, vídeos, além denúncias tudo que vem acontecendo dentro dos territórios originários.
“Quando a gente ocupa esses espaços a gente também domina a nossa narrativa. As nossas histórias elas sempre foram contadas por não indígenas e agora nós temos oportunidade de mostrar para as pessoas qual é a verdadeira história. Não vemos nossas pautas nos grandes veículos de comunicação”, comentou a bióloga.
Resistência
A ativista Tainara Kambeba, da comunidade indígena Três Unidos, em Manaus, disse que começou a utilizar as redes sociais porque viu a necessidade de mostrar a cultura de seu povo, começando pelo seu dia a dia, além das consequência que os povos indígenas sofrem pelas mudanças climáticas. Ela ressalta que atualmente diversos influenciadores indígenas mostram seu cotidiano com uma forma de resistência.
“No Brasil nós somos 305 povos, e entre esses 305 um deles é o meu povo (Omágua/Kambeba). Nós enfrentamos vários desafios, como o racismo e vários tipos de preconceito enquanto povos originários. Hoje eu utilizo as ferramentas digitais como estratégia para combater os ‘fake news’, o estereótipo que as pessoas criaram sobre nós. Nós, que estamos aqui na rede social mostrando que o indígena pode ocupar qualquer espaço de fala”, destacou Tainara Kambeba.
Samela Satere Mawé explica que por vezes é necessário se utilizar de algumas estratégias nas mídias sociais, para que as pessoas entendam sobre a relevância das pautas e da cultura indígena.
“Temos desafios muito grandes, para a gente manter a nossa cultura, manter viva a nossa língua, os nossos costumes, as nossas danças, nossas rezas, nossos cantos. Então, eu tento ser bastante didática em relação a tudo que eu falo nas redes sociais. A questão é que as pessoas não querem aprender sobre povos indígenas com os povos indígenas”, completou Samela.
Censo 2022
Dados do Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com o apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), apontam que a população indígena do país chegou a 1.693.535 pessoas, o que representa 0,83% do total de habitantes. Conforme o IBGE, pouco mais da metade (51,2%) da população indígena está concentrada na Amazônia Legal.
Em 2010, quando foi realizado o Censo anterior, foram contados 896.917 indígenas no país. Isso equivale a um aumento de 88,82% em 12 anos, período em que esse contingente quase dobrou. O crescimento do total da população nesse mesmo período foi de 6,5%.
Ainda conforme o Censo 2022, 1.071.992 (63,25%) indígenas vivem fora de territórios indígenas. Não foram divulgados dados específicos sobre quantos indígenas tem acesso a internet.






